segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Qual é o método mais efetivo para se adotar como paradigma de uma vida santa?

Alguns santos deixaram como herança métodos eficazes para a oração. Qual é o método mais efetivo para se adotar como paradigma de uma vida santa? Por Monsenhor José Luiz Villac

As almas criadas por Deus são passíveis de uma variedade imensa. Uma alma difere da outra como uma estrela difere da outra em luminosidade: “Stella a stella differt in claritate”, como diz o Apóstolo São Paulo (1 Cor. 15,41).

O melhor método para alcançar a santidade é o que mais se adapta a cada alma em concreto, com suas apetências e idiossincrasias, suas qualidades e suas lacunas. Ademais, é preciso levar em conta as dificuldades individuais a enfrentar, bem como as diferenças das épocas em que cada pessoa teve ou tem que viver.

Não obstante essa diversidade, assim como os membros de uma mesma família se parecem, há um “parentesco” de almas que explica a existência de “escolas espirituais”, suscitadas pela Providência de acordo com as apetências dos diversos tipos de mentalidades, bem como adaptadas à variedade dos tempos e lugares.

Foto - A espiritualidade dos cristãos está condicionada, entre outros fatores, pelo contexto histórico, tanto da sociedade espiritual, que é a Igreja, como da sociedade temporal

Pensemos na época das catacumbas, em que os primeiros cristãos tinham que provar a sua fidelidade a Cristo pela exposição ao martírio, ao mesmo tempo que deviam cumprir o preceito do Senhor de “pregar o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15), e assim implantar o cristianismo na sociedade pagã do tempo.

Resultado este que conseguiram afinal em 313, com o famoso edito de Constantino que deu liberdade à Igreja e praticamente baniu o paganismo, reduzido a um resto.

Livre das perseguições, a Igreja pôde dedicar-se mais amplamente à explicitação da doutrina de Jesus Cristo, o que, como contrapartida, deu azo a que o demônio suscitasse perniciosas heresias, combatidas energicamente pelos grandes Doutores e Padres da Igreja e condenadas por numerosos concílios.

Claro está que não podemos narrar aqui, nem mesmo muito sumariamente, as diversas etapas da História da Igreja. Mencionamos esses primeiros lances apenas para mostrar como a espiritualidade dos cristãos está condicionada, entre outros fatores, pelo contexto histórico, tanto da sociedade espiritual, que é a Igreja, como da sociedade temporal, constituída pelas diversas nações em que os homens se agrupam.

Assim, ao leitor que nos pede a indicação de métodos eficazes de oração e um paradigma para levar uma vida santa, respondemos desde já que qualquer das escolas espirituais que surgiram ao longo dos tempos, sendo acolhidas na Igreja como ortodoxas (isto é, conformes à doutrina do Evangelho) e consideradas aptas para conduzir as almas à santidade, servem também para os fiéis dos nossos dias e podem ser adaptadas para se enfrentar as condições particularmente adversas da sociedade descristianizada em que vivemos.

Neopaganismo: nova era de perseguições

São as voltas da História! Depois de atingir um máximo de esplendor e de influência na Idade Média — não o máximo possível, mas mesmo assim um auge grandioso —, a Santa Igreja foi perdendo influência ao longo dos tempos, atacada de fora por inimigos cada vez mais audazes e corroída por dentro por heresias sutis. Não faltaram santos que opuseram uma tenaz e gloriosa resistência ao avanço do inimigo.

Porém, a análise histórica parece mostrar que ainda não estava nos desígnios da Providência conceder à Igreja graças de triunfo pleno, mas apenas “graças de ocaso” — quão valiosas — que retardavam o processo revolucionário sem derrotá-lo completamente. Dir-se-ia que a Providência permitia aos homens — por não quererem seriamente converter-se —resvalar até ver diante de si o vulto completo dos horrores em que a humanidade pode cair quando se levanta contra Deus.

Não obstante, tem-se a impressão de que essa abominação está chegando a seu vórtice em nossos dias. Vórtice esse, por sua vez, prefigurativo da abominação das abominações que se dará no fim do mundo, conforme está descrito no livro do Apocalipse.

Que estejamos chegando ao auge de abominação, se vê no fato de que os princípios do Evangelho são espezinhados por toda parte: os partidários do aborto e da eutanásia tornam-se cada vez mais insistentes e audaciosos, em que pese a rejeição da maioria da opinião pública e a corajosa atuação dos movimentos contrários à prática abortiva; a noção tradicional da família vai sendo corroída nas mentalidades, nos costumes e na legislação; já há projetos de lei contra o que se convencionou qualificar pejorativamente de homofobia, etc. Cria-se assim uma situação em que vai sendo proibido ser católico ou, pelo menos, manifestá-lo de público.

É uma nova era de perseguições aos cristãos que se desenha no horizonte em grande parte do Ocidente, além de já ser uma realidade em vários países do Oriente, onde a caça aos cristãos lembra a era das catacumbas...

Para essa etapa crucial em que estamos adentrando, cabe-nos indicar uma espiritualidade apropriada, e é assim que interpretamos o pedido do missivista.

Sacralização de uma sociedade dessacralizada

Foto - O ideal católico de uma sociedade sacralizada, em que tudo, absolutamente tudo é referido a Deus, que criou o universo à sua imagem e semelhança.

Como é de conhecimento geral, e o Sumo Pontífice atual não tem deixado de assinalar em pronunciamentos importantes, vivemos hoje numa sociedade secularizada. Este é um termo técnico para significar que tudo quanto se refere a Deus e a uma vida futura, na eternidade, vai sendo sistematicamente banido da sociedade em que vivemos –– a única coisa que importa é a vida do presente século, e não a dos séculos futuros, a vida além da morte.

Sociedade secularizada é, portanto, uma expressão técnica, asséptica, para designar um fato monstruoso, qual seja a rejeição de qualquer impregnação da idéia de Deus na vida social, familiar e particular.

Ela se opõe frontalmente à idéia católica de uma sociedade sacralizada, em que tudo, absolutamente tudo é referido a Deus, que criou o universo à sua imagem e semelhança. Daí também que um embate entre essas duas concepções é absolutamente inevitável.

Não tem, portanto, nenhum sentido indicar para um católico de nossos dias um manual de espiritualidade que ignore esta realidade profunda. Felizmente, estamos em condições de recomendar ao leitor uma obra, lançada há cerca de um ano, que atende precisamente a esta necessidade. Trata-se do livro A inocência primeva e a contemplação sacral do universo, no pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira (Edição do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, Artpress, São Paulo, 2008, 320 pp.).

Como o livro define, a inocência primeva — apesar do pecado original — é o estado de harmonia com que a alma saiu das mãos de Deus. Infelizmente, na imensa maioria dos casos, esse estado de harmonia se perde ao longo da vida pelos pecados cometidos, mas é possível recuperar a graça divina pelo sacramento da Penitência e Confissão, como também reabrir a alma para Deus mediante a contemplação sacral do universo.

Em que isto consiste? Ao criar o universo, Deus não poderia deixar de imprimir nele alguma imagem e semelhança de Si mesmo (cfr. Sap. 2,23). Assim, até num grão de areia podemos ver algum vestígio, ainda que mínimo, do Criador. Máxime no homem, do qual diz expressamente a Sagrada Escritura que foi feito à semelhança de Deus (Gen. 1,26).

Segundo o livro que estamos recomendando, a vida do homem nesta Terra consiste precisamente em buscar esses vestígios, imagens e semelhanças de Deus presentes em todos os seres por Ele criados, e dilatar sua alma nessa contemplação.

Nisso consiste a contemplação sacral do universo, que tem dois efeitos imediatos: constitui um “método de oração eficaz” e um “paradigma de uma vida santa”, como o leitor queria; e prepara um grupo de almas fervorosas, cuja mente alcandorada em Deus fura a espessa camada de asfalto que o secularismo estendeu sobre o universo inteiro, impedindo os homens de ver o caráter sacral de todas as obras de Deus.

Peço a Nossa Senhora, Rainha sacral do Universo, que conceda essa insigne graça ao distinto missivista.


Fonte: Catolicismo

3 comentários:

efifernandes disse...

É muito difícil tentar se santificar num mundo como esse em que estamos vivendo, onde os valores estão invertidos e para nos santificar-mos, com certeza, perdemos emprego, filhos, marido e tudo o mais pq temos uma cartilha a seguir e fora desses padrões, estamos fora. Isso é uma pena pq, estou tentando mas falho e sempre. É dificil.

marilda disse...

Deus seja louvado!!!
Ainda bem que li esse texto, pois, agora sei que não estou enganada.
Há tempos que ando prestando atenção nos sinais e acontecimentos atuais.
Infelizmente são muito poucos que conseguem ver.O capitalismo que instiga os homens ao consumismo, gera a falsa idéia de que precisamos disto ou daquilo, vai destruir mesmo o mundo.Graças a Deus, li o suficiente sobre os santos e tive a graça de conhecer a vida de São Francisco de Assis, e digo-vos que não conheci outro santo tão radical e decidido por Jesus, o crucificado, como ele o chamava. Não é em vão que recebeu um abraço do Cristo na cruz e também suas chagas, mas ele amou a pobreza e a humildade a ponto de deixar-nos perplexos pelas suas atitudes de renúncia e caridade, para seguir e agradar a Deus.
Depois que conheci a fundo sua biografia, tenho certeza que vai ser muito difícil entrar no céu porque é necessário um coração puro,limpo, desses que não renova fácil neste mundo.
Agradeço a Deus essas palavras de conforto que recebemos através deste texto, porque eu, gostaria de deixar de viver neste mundo tão materialista, sem sentido algum. Mas um dia estarei liberta das obrigações imediatas de mãe de família, então, deixarei de viver como secular.
O que eu gostaria mesmo é de ir viver num eremitério.
Eu sei, há quem dirá que estou louca, mas eu respondo que "a sabedoria da Cruz é loucura para o mundo".
Peço que leiam em nome de Jesus, o Evangelho segundo Mateus 10,37-39 e a verdade vos libertará.
Um grande abraço em Cristo***

Solange disse...

Concordo com vc Marilda. E digo que pode até ser difícil deixar as obrigações deste mundo capitalista em busca da santidade, mas não é impossível. Além do mais, não precisamos de dezenas de pares de sapatos nem de reformar o guarda-roupas sempre só pq as propagandas nos influenciam a achar que "precisamos" comprar e comprar, nem de fazer o que a sociedade quer nos obrigar a fazer ditando as regras imbecis que só levam as pessoas cada dia mais ao estresse e a depressão por não saberem mais o que fazer nem como fazer...e a fome e a desigualdade aumentando em desparada.
Vamos acordar enquanto ainda há tempo, pois Deus não disse que mudou de idéia quanto a Cristo voltar denovo e deixar pra lá os erros humanos.
Um abraço e vamos usar mais a razão e não a vaidade como se estão usando atualmente. Deixarmos de ser individualistas seria um bom começo.