quarta-feira, 11 de novembro de 2009

São Martinho de Tours, Bispo e Confessor

Apóstolo das Gálias e primeiro padre do monaquismo ocidental
Por Luís Carlos Azevedo

Em 311, quatro anos antes do nascimento de São Martinho de Tours, termina a última perseguição pagã contra os cristãos. Em 313, o imperador Constantino promulga o Edito de Milão, que concede plena liberdade religiosa aos católicos.

Entre 361 e 363, Juliano, o apóstata, tentará, em vão, reanimar o paganismo: os falsos deuses estão mortos! Com Teodósio, o Grande, o passo final estará consumado: em 380, o Cristianismo tor­na-se a Religião do Império; em 391, os cultos pagãos estão definitivamente abolidos. O século IV é, para a Igreja, um século de vitória.

Então, a teologia e a doutrina espiritual ganham um élan sem precedente. Com Santo Atanásio e São Cirilo, no Egito; São Basílio, São Gregório de Nissa, São Gregório Nazianzeno, São João Crisóstomo, na Ásia Menor; Santo Hilário de Poitiers, Santo Ambrósio, São Jerônimo, no Ocidente; Santo Agostinho, na África do Norte, aparece uma plêiade de santos e de pensadores que não terão equivalentes em épocas, ulteriores da História da Igreja. E o grande século dos Padres da Igreja.

Liberta dos ataques do paganismo, a Igreja defrontar-se-á, durante 50 anos, com a heresia ariana [ver nota], que negava a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nessa época ainda, em que a Cristandade deixa de estar continuamente purificada pelo sangue dos mártires e durante a qual a corrupção do mundo ameaça contaminá-la, uma elite de católicos encontra nova forma de praticar o heroísmo.

De todas as partes, homens e mulheres abandonam a vida luxuosa do mundo romano para viver na solidão e no despojamento os mais completos, nos desertos do Egito e da Sí­ria. E o tempo de Santo Antão, pai dos eremitas, e de São Pacômio, fundador do primeiro mosteiro de cenobitas (em 323): a grande época dos monges e dos Padres do deserto.

O século IV, enfim, é o grande século da conversão dos campos gauleses e da fundação das paróquias rurais –– as primeiras que foram criadas –– e estes episódios se identificam com a vida de São Martinho de Tours, que foi, na Gália, o maior evangelizador dos campos pagãos.

------------------------------------------------------------------------------------------------- O mais popular dos antigos santos franceses,. patrono de mais de 3.700 igrejas no país, entretanto não era francês.

Mais de um século antes que a França nascesse, antes mesmo de Clóvis e de Santa Clotilde, ele vivia na Gália, sob dominação dos imperadores romanos. Trata-se de São Martinho de Tours (315­397), nascido em Sabaria, na Panonia (sudoeste da atual Hungria), cuja festa a Igreja celebra a 11 de novembro.

Quatrocentas comunas francesas levam o seu nome. Nas ruas das cidades, nas rodovias, nas pequenas estações, esse nome proclama a imensa popularidade do santo que evangelizou a França.

Antes mesmo de a França tomar-se católica foi preciso que a Boa Nova de Nosso Senhor Jesus Cristo transpusesse todo o Mediterrâneo, desde Jerusalém até Marselha. Foram os Apóstolos que, após Pentecostes, levaram a mensagem salvadora aos gregos e romanos. Estes, por sua vez, a levaram às Gálias. E são conhecidos os nomes de São Potino e Santo Irineu, executados em Lyon no século II.

Malgrado a perseguição encarniçada, movida pelos imperadores romanos contr­a os cristãos, nos primeiros séculos de nossa era, uma falange de valorosos Bispos funda núcleos de católicos em quase todas as cidades gaulesas, sobretudo no Sul.

Entretanto, quando o século IV começa, os campos na Gália são quase inteiramente pagãos. Resta uma tarefa enorme de evangelização por realizar-se. E nesse contexto que a Providência suscita grande São Martinho.

* * *

Seu pai era tribuno militar em tempos dos Césares Constantino e Juliano, conquistou um a um todos os graus de oficial nos exércitos romanos. Terminado. seu serviço, retirou-se para Pavia onde o jovem Martinho (isto é, o pequeno Marte, o Deus da Guerra, segundo a mitologia) foi educado.

Com apenas dez anos de idade, S Martinho, por uma moção divina, às escondidas dos pais, ia freqüentemente igreja pedir instrução religiosa e faz-se catecúmeno. E já aos doze desejava ardentemente a solidão do deserto

Com efeito, por essa época um sopro da graça arrastava para o deserto um grande número de eremitas, desejosos de se subtraírem à podridão do Império e de se entregarem a uma vida mais contemplativa.

Tinha ele quinze anos quando um edito dos imperadores engajou nas armas todos os filhos de veteranos militares, a fim de fazer frente à invasão dos bárbaros nos domínios imperiais. Após alguns anos passados na Itália para o aprendizado, Martinho foi enviado às Gá­lias como cavaleiro.

A divisão do manto

Por volta do ano 333, num dia de rigoroso inverno em que grande número de mendigos morria de frio pelas ruas, São Martinho encontrava-se numa das portas da cidade de Amiens. Ali, um pobre nu implorava piedade aos passantes. Tendo já distribuído todos os seus bens, não lhe restando senão as armas e as roupas, São Martinho rasgou a fio de espada seu manto em duas partes: uma deu ao pobre e com a outra abrigou-se como pôde.

Na noite seguinte, em sonhos, viu Jesus Cristo coberto com a metade do seu manto, dizendo aos anjos que o rodeavam: "Quem me cobriu, porque estava nu e com frio, não passa ainda de catecúmeno".

Martinho, impressionado como sonho, apressou-se em receber o Batismo. Contava ele, então, dezoito anos de idade.

São Martinho recusa o combate

Um acontecimento súbito pôs fim à vida militar de São Martinho, no ano 356.

Fascinados pela riqueza do Império, bárbaros francos, alamanos e saxões irrompem na Gália, e o César Juliano, que deveria combatê-los, distribui dinheiro aos soldados de suas legiões. São Martinho, entretanto, cuja intenção era de re­colher-se quanto antes na solidão eremí­tica, recusa qualquer quantia, e diz ao César: "Até aqui eu te servi, Juliano, suporta agora que eu sirva a Deus. Teu dinheiro está reservado para quem vai combater. Mas eu sou soldado de Cristo e combater não me é permitido".

Com efeito, a Igreja proibia aos religiosas de participarem da guerra. E desde o Imperador Constantino, aliás, o ingresso nas Ordens religiosas dispensava do serviço militar.

Juliano, contudo, indignado com a resposta, disse que não era pela religião, mas sim por medo, que ele renunciava ao combate. São Martinho não se deixou intimidar e retrucou: "Atribui-se minha recusa à covardia, não à minha fé. Pois bem, amanhã, na linha de frente, eu me apresentarei sem armas. Em nome de meu Senhor Jesus Cristo, protegido somente pelo sinal da Cruz, sem escudo nem capacete eu penetrarei sem temor nas hostes inimigas". O César fê-lo encarcerar à espera do amanhecer ...

No dia seguinte, entretanto, os invasores, misteriosamente confundidos, enviaram embaixadores para pedir a paz. São Martinho é libertado pouco depois, tendo perdido todos os benefícios de sua brilhante carreira militar. Ele se apresenta a seu Mestre, o célebre Santo Hilário, Bispo de Poitiers, muito conhecido na Gália pelo ardor com que defendia a divindade de Cristo contra os hereges arianos 1, o qual, percebendo desde logo os méritos do discípulo, quis ordená-lo diácono. São Martinho, jul­gando-se indigno, solicitou que o ordenasse apenas exorcista. Esses fatos se passaram em fins do ve­rão do ano 356.

Ressurreição de um morto

Estando em sua terra natal, depois de inúmeras vicissitudes de viagem, São Martinho soube que seus conterrâneos de Sabaria haviam aderido à heresia ariana. Ele quis convertê-los, mas a situação che­gou a tal ponto que ele foi vergastado e expulso da cidade. Ao mesmo tempo, Santo Hilário deixou Poitiers, no outono do ano 356, perseguido por esses temí­veis hereges, e refugiou-se na Frigia (Ásia Menor).

Não sabendo para onde ir, São Marti­nho fez construir um mosteiro, nas cercanias de Milão, onde levava vida eremíti­ca. Em pouco tempo, vários discípulos se agruparam junto dele.

Entre os que ali recebeu, estava um catecúmeno que, durante sua ausência, morreu subitamente sem ter recebido o Batismo. Ao voltar da viagem, São Martinho encontrou os monges em grande aflição e prestes a enterrar o morto. Com os olhos rasos de lágrimas, fixou o cadáver e, inspirado por Deus, orou fervorosamente. O catecúmeno mexeu-se, suspirou, abriu os olhos. Batizado imediatamente, acabou vivendo por muitos anos! 2.

Sucedeu, entretanto, que Auxentius, Bispo de Milão, perverteu-se para o arianismo, alimentando um ódio de morte à ortodoxia de São Martinho. Perseguiu-o, cobriu-o de ultrajes e fê-lo expulsar da cidade. Este recolheu-se, então, a uma vida solitária na ilha de Gallinaria (hoje Isola d'Albenga), no mar da Toscana, região selvagem, deserta, infestada de serpentes.

Em 360, reencontrou-se ele com Santo Hilário, em Poitiers, cidade para a qual o Bispo havia retomado depois de três anos de exílio.

Fundação do primeiro mosteiro da França

Apoiado pelo santo Prelado, São Martinho instala-se a oito quilômetros ao sul de Poitiers, em Ligugé, às margens do rio Clain, onde funda o primeiro mosteiro estável conhecido na Gália.

Este mosteiro é ao mesmo tempo um lugar de recolhimento e de vida apostólica. Os religiosos se instalavam em pequenas cabanas próximas umas das outras e se reuniam em certas horas para rezar em comum. Em outros momentos, eles partiam para anunciar o Evangelho, curar os enfermos, instruindo nos campos gauleses as crianças e pregando. Uniam assim harmoniosamente três gêneros de vida: a solitária, a missionária e a vida em comum. Essa época representou o grande período de evangelização dos meios rurais na França.

Uma sombra, entretanto, entristeceu vivamente São Martinho nesse período foi a morte, em 367, de seu mestre, Santo Hilário.

Bispo de Tours

A sede episcopal de Tours, vaga em 371, desejava a São Martinho devido a sua virtude e pelos milagres que operava. Como ele se recusasse a abandonar o mosteiro de Ligugé, foi empregado um estratagema. Um cidadão, simulando que sua mulher estava muito doente, pôs-se de joelhos e persuadiu-o a acompanhá-lo. No caminho, o Santo foi raptado e levado para Tours em meio a uma grande multidão, que o aclamava dizendo: "Martinho é o mais digno do Episcopado. Feliz a Igreja que tenha um tal Bispo". Ele foi sagrado a 4 de julho daquele ano, contando já 55 anos de idade.

São Martinho continuou no episcopado a vida monástica, fazendo construir a duas milhas de Tours um mosteiro onde vivia com oitenta monges. Esse mosteiro, chamado Marmoutier, existiu até o século passado .

Na morte. assistência de Santo Ambrósio

Pouco antes de expirar, São Martinho gritou a plenos pulmões, vendo o demônio perto dele: "O besta cruel. Nada encontrarás em mim que te pertença, maldito! Daqui, com a ajuda de Deus, irei para o seio de Abraão"!

Assim, com mais de 80 anos de idade, o grande apóstolo entregou sua alma a Deus, comparecendo aos. seus funerais dois mil monges e uma multidão de fiéis.

Nesse mesmo dia, Santo Ambrósio, Bispo de Milão, celebrando a Missa adormeceu sobre o altar à hora da Epístola. Ninguém ousou despertá-lo, e o subdiácono não queria ler a Epístola sem ter recebido ordem para tal.

Transcorridas três horas ... Santo Ambrósio foi despertado.

- "Já passou a hora, e o povo se cansa de tanto esperar - disseram-lhe. Que nosso Senhor ordene ao clérigo de ler a Epístola".

- "Não vos perturbeis - responde o Santo -, pois meu irmão Martinho subiu para junto de Deus; eu assisti aos seus funerais e lhe prestei os últimos deveres; mas vós, despertando-me, impedistes ­me de concluir o último responsório" ...

No mesmo instante tomou-se nota da­quele dia, e se soube que São Martinho, realmente, havia falecido naquele exato momento!
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NOTAS: 1. O arianismo foi a mais perigosa heresia dos primitivos tempos do Cristianismo. Foi seu fundador um sacerdote de Alexandria. chamado Ario (+ 336). Ensinava ele ser o Filho subordinado ao Pai. O Filho. segundo ele. por ser desprovido dos atributos absolutos da divindade. não podia realizar nem a criação nem a redenção. Condenada a heresia pelo Concílio de Nicéia (em 325). não cessou a sua obra deletéria nos meios católicos. envolvendo muitos Bispos nas suas ambíguas e imprecisas fórmulas heterodoxas. O Imperador Teodósio, o Grande (nº ­395), reafirmando a ortodoxia. conseguiu atenuar os males do arianismo que, por mais de meio século dilaceraram a Igreja. Foi definitivamente condenado pelo Concilio de Constantinopla (381), após polêmicas violentas, lutas e divisões entre os católicos. O grande São Jerônimo chegou a descrever tal situação com estas palavras: "Lastimou-se todo o orbe e admirou-se porque estava ariano". 2.Na realidade, os biógrafos registram três ressurreições operadas pessoalmente por São Martinho, em distintas épocas e lugares.


REFERÊNCIAS BIBLlOGRAFICAS: 1. Dom Próspero Guéranger. El Año Liturgico, festas de novembro. Editorial Aldecoa. Bur­gos. I956. 2. Pe. Rohrbacher. Vidas dos Santos, festas de novembro, Editora das Américas, São Paulo. 1959. 3.Abbé Profillet. Les Saints Militaires, Reteaux-­Bray Editeur, Paris. 1890. tomo VI. 4. João Batista Lehmann. Na Luz Perpétua, Livraria Editora "Lar Católico", Juiz de Fora (MG), 1950. vol. 11. 5. Jacques de Voragine. La Légende Doreé,. Garnier-Flammarion. Paris. 19167. vol. lI. 6. Fêtes et Saisons. Revue mensuelle de Ia famil­le et de Ia paroisse. Paris. n° 54. outubro de 1950..

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