segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Posição da Igreja em relação aos suicidas.

Em minha família tivemos um ente querido que cometeu suicídio, era irmão de minha esposa, e no seu velório o Padre se recusou a rezar por sua alma. Eu e minha família ficamos extremamente chocados. Gostaria de saber se o senhor poderia me explicar a atitude do Padre. Se foi uma atitude isolada ou se é sempre assim. Podemos mandar rezar Missas em intenção da alma de meu cunhado?

Resposta por Cônego José Luiz Villac

Nada justifica o suicídio porque, por mais árduas que sejam as condições de existência de uma pessoa, o homem foi feito para enfrentar durante a vida situações adversas, às vezes duríssimas. E Deus nunca recusa ao homem os auxílios de que precisa para cumprir seus deveres familiares, profissionais e sociais e para superar todas as provações.

Auxílios esses que alcançamos de Deus muito especialmente através da oração: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, Ele vo-la dará”, disse Nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 16, 23). “Tudo que pedirdes, com fé, na oração, o recebereis” (Mt 21, 22). O desespero do suicida é uma negação pecaminosa da misericordiosa paternidade de Deus e da promessa infalível de Jesus Cristo.

O suicídio é um pecado escandaloso, que atenta contra os direitos de Deus, supremo e único Senhor da vida e da morte. É um pecado que agride brutalmente o convívio familiar e social, privando os familiares e os amigos da presença de um ente querido, e muitas vezes de um sustentáculo material, afetivo e espiritual. É um pecado gravíssimo que precipita a alma diretamente no inferno.




Foto - Fran Angélico (séc. XV), Museu de São Marcos, Florença (Itália. Por ocasião do Juízo Final, todas as almas que estiverem no Purgatório deverão já ter expiado suas penas e apresentar-se-ão purificadas diante de Deus.

Por esta razão, as leis da Santa Igreja (cânones 1184/5) vedam conceder exéquias eclesiásticas aos “pecadores manifestos” — como é o caso dos suicidas — “a não ser que antes da morte tivessem dado algum sinal de arrependimento”.

O ítem 3º do cânon 1184 introduz a precisão de que a privação das exéquias elcesiásticas deve ser aplicada aos “pecadores manifestos, aos quais não se possam conceder exéquias eclesiásticas sem escândalo público dos fiéis”

O sacerdote, ao recusar-se a rezar pela alma da pessoa que cometeu o suicídio, presumivelmente examinou a situação concreta para, conforme diz o ítem acima referido, evitar o “escândalo público dos fiéis”. Compreende-se, pois, a atitude assumida por ele.

Convém ainda acrescentar que não basta a mera suposição de que talvez, nos últimos instantes (entre o ato suicida e a morte efetiva), pela infinita misericórdia de Deus, ter-se-á arrependido de seu ato tresloucado e obtido o perdão.

É preciso que haja algum testemunho fidedigno de que o suicida, antes de expirar, tenha por exemplo beijado devotamente um crucifixo ou alguma imagem ou objeto piedoso, tenha batido no peito dando mostras de arrependimento de seu pecado, tenha pedido que lhe levassem um sacerdote, ainda que este não tivesse chegado a tempo etc. Sem estes sinais, o sacerdote não pode dar-lhe “sepultura eclesiástica”, ou seja, rezar publicamente pelo defunto, encomendar-lhe a alma, benzer sua sepultura etc., nem celebrar as Missas de exéquias.

De qualquer modo, como resta a possibilidade de Deus ter concedido in extremis ao suicida a graça do perfeito arrependimento, sem que ele o tenha podido manifestar publicamente, é permitido rezar privadamente pelo defunto, e mesmo encomendar Missas em sua intenção, desde que estas sejam celebradas privadamente e assistidas só pelos familiares e amigos mais íntimos, sem comunicar ao ato nenhum caráter social (como anúncios em jornal, por exemplo).

Infelizmente, essas sábias e razoáveis disposições eclesiásticas, que antigamente eram bem conhecidas dos ­fiéis, hoje não mais o são, o que explica que o consulente e sua família tenham ficado extremamente chocados com a atitude do sacerdote. Em vista disso, teria sido conveniente, talvez, que ele desse uma explicação à família.

A triste realidade de nossos dias é que vivemos numa sociedade que se distanciou de Deus.Noções como a da extrema seriedade da vida, na qual devemos, pela honestidade de nossos atos, ganhar o Céu, e portanto evitar qualquer transgressão dos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, não fazem mais parte das cogitações habituais de um número enorme de nossos contemporâneos. Restam apenas alguns fiapos de tradições cristãs, como a de rezar pelos defuntos no velório, chamar um Padre para que encomende a sua alma etc.

E ainda é forçoso reconhecer que mesmo esses fiapos estão desaparecendo. Contudo, a reação do consulente e de sua família, de ficarem chocados com a recusa do sacerdote de rezar publicamente pelo suicida, compreende-se em função do desejo de obter para ele a salvação.

Que eles rezem, pois, pelo seu ente querido, pois Deus, em sua infinita misericórdia, na previsão dessas orações, pode ter dado ao defunto a graça do arrependimento in extremis. Até lá pode chegar a misericórdia divina!

Fonte: Catolicismo

4 comentários:

Lucia catequista disse...

Deus é misericoria, em varios momento da vida o ser humano perde a dignidade humana, porém nunca a de filho de Deus.
O Senhor sonda os çorações de seus filhos.
Há também caso de loucura em que perde-se a capacidade de agir e responder por seus atos.
Vamos rezar por todos e ficar sempre em vigilancia, para não cair e tentação.
Senhor tendes misericordia de vosso filhos.
Eu creio , confio e espere em vossa misericordia.
Amém!!

j.bastos disse...

DEUS É PAI É BOM E INFINITAMENTE MISERICORDIOSO E ENORME EM COMPAIXÃO,POR ISSO E NAO OBSTANTE O SUICIDIO NUNCA DEVER SER COMETIDO,HÁ Q COMPREENDER O DESESPERO E SOFRIMENTO DE QUEM O COMETE SOBRE SI PRÓPRIO,DAÍ JESUS RECEBER A SUA ALMA TAL COMO SE FOSSE UMA MORTE NATURAL,ESTA É A MINHA CRENÇA E O MEU PENSAMENTO....ENTAO SE A PESSOA QUE SE SUICIDOU O FEZ DEVIDO A GRANDE SOFRIMENTO,DEUS/JESUS IRIA CONDENAR A PESSOA ETERNAMENTE ?? NAO ACREDITO!PREFIRO ACREDITAR NA MESERICORDIA E BONDADE DE DEUS.

Solange Lellis disse...

Graças a Deus, nós pobres "ignorantes" acreditamos num Deus misericordioso. Talves não sejamos estudados como vocês padres, cônegos, bispos, etc. Mas acreditamos na infinita bondade de Deus. A opnião de vocês foi um bálsamo para o meu coração. Obrigada. Fiquem com Deus.

Solange Lellis disse...

Li a resposta que o Cônego José Luiz Villac deu a um fiel, aflito com o triste acontecimento do suicidio de um ente querido de sua familia. Aconteceu o mesmo fato lamentavel comigo. Meu marido, um homem de Deus, trabalhador na igreja que frequetávamos e de outros seguimentos (encontro de casais, encontro do diálogo, coordenador do grupo de jovens, tocava e cantava junto com os jovens na missa das 19h todos os domingos), seguidor da Virgem Maria, rezava o terço todos os dias mas infelizmente em um momento de fraqueza ele se suicidou. Depois de tanto trabalho na igreja, amigo de tantos padres o corpo do meu marido teve de ser encomendado por uma senhora que o amava muito e era Minintro da Eucaristia. Ela própria ficou muito triste e chocada pela falta de um padre amigo. Gostaria de saber que Deus e esse em que voces acreditam? Onde está o Deus que vocês me ensinaram a crer? O Deus que eu creio é misericordioso e nunca abandona um filho de uma forma tão triste mandando-o direto para o inferno, como disse o Cônego José Luiz. O meu Deus jamais abandonaria um homem que em vida foi honrado, bom pai, bom marido e amado por todos que o cercavam. Que era alegre e levava esta alegria pra dentro da nossa igreja e contagiava a todos os fieis. Que tinha muita fé na Virgem Maria, mãe do Nosso Salvador, e com Ela mantinha laços estreitos rezando o terço todos os dias. Acredito piamente que Ela própria não o desamparou, rogando ao Seu Filho a salvação da alma do meu marido. Peço a Deus que meus filhos não leiam esta resposta que o Cônego deu a esta pessoa que só precisava de um consolo da igreja católica, porque eles, assim como eu, vão se sentir muito tristes. Peço ainda, com toda humildade, que os dirigentes da igreja católica tenham mais compaixão com as pessoas que perdem entes queridos de uma maneira tão trágica e triste. Apesar de todo o estudo que vocês têm, vocês não podem saber com certeza a grandeza e a verdadeira dimensão do amor de Deus. Não se achem os donos da verdade, porque a VERDADE definitiva está somente em DEUS. Obrigada. Que a paz de Deus esteja sempre com vocês.