segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Como cristãos, devemos segregar os criminosos do convívio social?

Pergunta — O catolicismo é uma religião baseada na fraternidade, na caridade, no amor pelo próximo, conforme os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por outro lado, a lei dos homens prevê inúmeros crimes, e todo o aparato estatal é movimentado para que os crimes sejam punidos. Pois bem, como cristãos, como devemos agir em relação aos criminosos? Devemos realmente segregá-los do convívio social? Ou Jesus Cristo espera algo diferente de nós? O que Deus “pensa”, ou melhor, como Jesus nos “enxerga” quando somos parte desse aparato estatal destinado à punição do crime?

Resposta de Cônego José Luiz Marinho Villac— Pergunta das mais atuais, a que o consulente nos apresenta. Começaremos por dar uma resposta rápida, em seguida entraremos nos pormenores.

A caridade, o amor ao próximo que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina, consiste obviamente em querer o bem do nosso próximo. Mas se esse próximo está deliberadamente voltado à prática do mal, o primeiro bem que devemos querer para ele é que se afaste de todo mal. Porém, se ele fecha os ouvidos aos conselhos que lhe damos e está decidido a fazer o mal a si mesmo ou a outrem, conforme o caso não há outra solução senão tolher decididamente a sua liberdade de operar esse mal. E com isto praticamos a caridade para com ele, evitando que pratique o mal; sobretudo praticamos a caridade para com um terceiro a quem ele queira prejudicar.

Isto no que diz respeito à caridade. Haveria ainda a considerar o que tange à justiça, mas alongaria demais esta exposição, de modo que a deixamos para outra ocasião.

Ascese, uma palavra esquecida

Esta resposta genérica comporta vários “conformes”, que é preciso especificar para tratar adequadamente a matéria.

O primeiro axioma da moral católica, e até mesmo da Lei Natural, se exprime na fórmula clássica: “O bem deve ser feito” (bonum est faciendum) e “o mal deve ser evitado” (malum est vitandum). Este axioma vale individualmente para cada um de nós, isto é, devemos praticá-lo em relação a nós mesmos; mas vale também em nosso relacionamento com terceiros.

Isso implica no esforço que devemos exercer para fazer o bem a nós mesmos, por exemplo, vencendo a preguiça que possamos ter, de executar determinado trabalho; ou para controlar nossas reações excessivas diante das contrariedades da vida, evitando dirigir palavras ofensivas ao próximo que prejudicou nossos interesses. Sem dúvida temos, em justiça, o direito de defender de modo proporcionado nossos interesses legítimos. Mas, por vezes, somos levados a deixar extravasar nossas paixões. O esforço necessário para manter o domínio sobre nós mesmos chama-se ascese, palavra importante que vai saindo de uso, mas cujo exercício devemos empenhadamente restaurar.

O viés monstruoso da ideologia freudiana

Policial prende suspeito de cometer delito - Foto


A educação moderna, de inspiração freudiana, sustenta exatamente o contrário, isto é, que não devemos fazer ascese nenhuma, não devemos coibir-nos em nada, e sim fazer aquilo de que tenhamos apetência, no momento que quisermos, sem nenhuma consideração de ordem moral ou de respeito às normas do convívio social.

Para Freud, o bem consiste em dar largas a tudo que nos apetece; e o mal está em coibir os instintos de nossa natureza, quaisquer que eles sejam. Isso porque — argumenta ele — a ascese preconizada pela moral católica produz recalques, que são a causa de neuroses e psicoses e constituem o verdadeiro mal para o homem.

Aplicada concretamente à educação dos filhos, essa teoria ensina que nunca se deve dizer não a uma criança, mas deixá-la fazer o que bem entenda, para evitar os distúrbios psíquicos decorrentes da inibição de seus instintos naturais. A tal ponto que ele escreve, em seus livros — horresco referens (com horror o menciono) — que não se deve nem mesmo impedir a criança de brincar com os dejetos do próprio organismo!...

Com isso, é fácil compreender que a “receita” de Freud gera monstrinhos, que com o correr do tempo se transformam em grandes monstros, capazes de cometer toda espécie de absurdos, desatinos e crimes, que ele entretanto não qualifica assim. Pelo contrário, para ele é monstro o aparelho social e estatal que inibe a prática dos instintos essencialmente bons com que a criança nasce.

Depois de Caim assassinar seu irmão Abel, Deus o amaldiçoou e o condenou a “ser peregrino e errante sobre a Terra” - Foto

Daí conseqüências monstruosas que a sociologia de inspiração freudiana tira desses princípios, por exemplo considerando tirana a sociedade que segrega os loucos e os criminosos do convívio social. Os manicômios praticamente já acabaram.
Chegará o momento em que desejarão eliminar também as prisões, como se pode deduzir da campanha unilateral contra os abusos que infelizmente ocorrem dentro dos cárceres, ou na atuação do aparato policial.

Não tenhamos receio de apoiar a benemérita e justa atuação dos agentes prisionais e das forças da ordem, a fim de que exerçam suas funções com solércia e absoluta firmeza. Naturalmente, sem excessos desumanos, e a este respeito vem a propósito lembrar o princípio da Escritura: “Os poderosos serão poderosamente atormentados” (Sap. 6,7) pelas injustiças que cometam. E Deus castigou Caim pelo assassinato de seu irmão Abel (Gen. 4, 11-12). O leitor pode ficar tranqüilo, porquanto Deus não nos “enxergará”, por causa disso, com olhos freudianos...

Deus não nos vê com olhos marxistas

Tampouco Deus nos enxergará com olhos marxistas. A ideologia freudiana atua de forma sutil, enquanto a ideologia marxista atua de forma escancarada, bafejada como é pela micro, pequena, média e grande imprensa. Ademais, conta com o escandaloso apoio da teologia progressista, infiltrada inclusive em altos postos da Hierarquia da Igreja. Inacreditável, mas real, apesar de o caráter marxista dessa teologia anticatólica ter sido denunciado em importantes documentos da Santa Sé, ainda no pontificado de João Paulo II.

Em 2006, uma rebelião de criminosos condenados, coordenada com criminosos ainda não julgados ou não capturados pela polícia, espalhou o terror na cidade de São Paulo. Uma autoridade estadual teve então a esdrúxula idéia de apontar as elites sociais e econômicas como responsáveis pela situação de pobreza em que se encontraria a maior parte da população, e seria esta, em última análise, a responsável pela existência de prisões abarrotadas de criminosos.
Estes, portanto, com razão se rebelavam... A idéia é de insofismável caráter marxista, e provocou a justa indignação da classe média paulistana. A referida autoridade logo entregou o cargo que exercia interinamente, e recolheu-se ao sossego de sua vida apagada.

Ora, a ligação do crime organizado com o narcotráfico é pública e notória. Não se tratava de pobreza, mas sim de organização criminosa, pelo que a alegação da referida autoridade é simplesmente um despropósito. E apesar de ter suscitado um vigoroso e generalizado repúdio, a força da propaganda marxista acabou por gerar escrúpulos a esse propósito em certos católicos pusilânimes e infectados pela pregação da Teologia da Libertação.

Repetindo o anteriormente dito, o leitor pode ficar tranqüilo, pois o olhar de Deus nada tem de marxista — seria uma blasfêmia pensar o contrário — e nada encontrará para censurar em quem apóie o “aparato estatal” cuja missão é “segregar do convívio social” os que, depois de um julgamento equânime, forem com absoluta justiça considerados culpados de crimes.

Aproveito para esclarecer que, de acordo com a doutrina de Santo Tomás de Aquino, um dispositivo legal é também legítimo quando está de acordo com as leis da Igreja e a Lei natural. Do contrário, será legal, porém não legítimo.

Que o nosso País descamba perigosamente rumo a uma situação de ilegitimidade legal — com a ameaça de introdução do aborto, da eutanásia, da aprovação da união de pessoas do mesmo sexo e outras monstruosidades do gênero —, é outra questão que tem ocupado com freqüência as páginas de Catolicismo, e que nos dispensamos de tratar aqui, pois também excede os limites da pergunta do missivista, a qual pensamos ter esclarecido suficientemente.
Que Deus o ajude a tomar a boa posição, livrando-o de qualquer laivo de freudismo ou de marxismo que eventualmente tenha perturbado a paz de sua alma.

2 comentários:

Solange disse...

É lógico que, a todo crime se deve uma pena. Infelizmente o governo opta por investir mais em prisões que na educação. E não preciso ir longe para afirmar isto, em minha cidade onde ha pouco tempo havia uns 30 alunos em sala, hj existem mais ou menos 40. Estão diminuindo as salas de aula, sufocando os professores para "sobrar mais $$$" nos cofres do governo. Pois onde há pobreza é muito mais fácil comprar um voto por um "pacote de arroz", nem precisa ser a cesta básica. As famílias estão desfaceladas, os filhos nem todos conhecem os pais, a miséria toma conta, "O FOME ZERO" foi mais propaganda que efeito. É bolsa isso, bolsa aquilo. Estão dando o peixe mas não ensinam a pescar, apesar que os lagos não estão muito cheios, mas isto não justifica, sempre há um serviço aqui ou acolá, mas o comodismo já tomou conta de muitos com tantas bolsas. Falo isto pq ouço, vejo, é fato.
É preciso investir na família, na educação, nos professores que infelizmente estão levando toda a responsabilidade de educar as crianças. Perdeu-se as bases, os princípios, os valores da família...é tanto divórsio, tantos filhos de "ninguém" que chega ser triste de se ver.

Solange disse...

...e ainda esqueci de comentar a falta de preparo dos policiais os quais tem o dever de "proteger e dar segurança" a população e não sair dando pancada como faz questão de enfatizar a mídia. Muitos abusam só por estar dentro de um uniforme de policial. Que é isso? Em quem confiar? Não estou generalizando, exitem aqueles que realmente cumprem seu papel em proteger e parabenizo estes, mas infelizmente os que não cumprem é que dão "ibope".
São tantas as questões que precisam melhorar, mudar, rever. É trabalho de "beija-flor", cada um precisa fazer sua parte para obter resultado positivo.
Afinal somos pessoas dotadas de inteligencia e não animais com instinto!