quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A festa dos três arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael - Parte III

Leia a parte I e parte II

O “non serviam” dos anjos rebelados

Segundo o Jesuita Suárez, Deus Pai teria comunicado aos anjos a Encarnação do Verbo. Parte deles não teriam aceitado isso, e rebelaram-se (foto)

Um problema se põe: como foi possível a esses anjos pecar, não estando sujeitos às paixões nem ao erro do entendimento como nós homens? “Como compreender semelhante opção e rebelião contra Deus, em seres dotados de tão viva inteligência?”, pergunta o Papa João Paulo II.

Ele mesmo responde: “Os Padres da Igreja e os teólogos não hesitam em falar de cegueira, produzida pela supervalorização da perfeição do próprio ser, levada até o ponto de ocultar a supremacia de Deus, a qual exigia, ao contrário, um ato de dócil e obediente submissão.

Tudo isto parece expresso de maneira concisa nas palavras: ‘Não servirei’ (Jer 2, 20), que manifestam a radical e irreversível rejeição de tomar parte na edificação do reino de Deus no mundo criado. Satanás, o espírito rebelde, quer seu próprio reino, não o de Deus, e se levanta como o primeiro adversário do Criador, como opositor da Providência, como antagonista da sabedoria amorosa de Deus”.

Como criaturas racionais e livres, tinham eles a capacidade de escolher a favor ou contra aquilo que lhes era apresentado. Continua o mesmo Pontífice: “Também para os anjos a liberdade significa possibilidade de escolha a favor ou contra o bem que eles conhecem, quer dizer, o próprio Deus”.(5)

Essa questão de saber qual terá sido a prova apresentada aos anjos não está definitivamente resolvida, e há várias hipóteses de qual teria sido seu teor. Uma das bem aceitas, defendida pelo eminente teólogo jesuíta Suarez, do século XVII, é a de que Deus Pai teria comunicado aos anjos a futura Encarnação do Verbo de Deus na Virgem Maria.

Com a conseqüência de que eles teriam que honrar a Mãe do Verbo Encarnado, a qual, por sua dignidade sobrenatural, ficaria colocada acima deles próprios. Portanto, teriam que honrar Nossa Senhora, cuja natureza humana é inferior à angélica, mas que pela graça de Deus seria colocada acima dos próprios anjos. Em seu orgulho, parte dos anjos, chefiados por Lúcifer, não quis aceitar isso e se revoltou.

Em todo caso, é crença comum que o pecado dos anjos maus teria sido um pecado de orgulho, de soberba, pois a Sagrada Escritura afirma que “foi na soberba que teve início toda a perdição” (Tob 4, 14).

Assim sendo, em vez de se inflamarem no amor de Deus, esses anjos rebeldes preferiram o amor de si mesmos, isto é, o amor-próprio. Pelo que, afirma Mons. Delassus: “Essa foi, infelizmente, a conduta de numerosos anjos! Essa é também a conduta de numerosos homens. Criados para uma eterna felicidade, eles dela se desviam, e o fazem para correr para sua ruína”.(6)

“Dominadores deste mundo de trevas”

Como diz São Paulo, “não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos imundos espalhados pelos ares” (Ef 6, 12).
Que a ação do demônio ocorre hoje em dia, certamente de modo mais eficaz que em outros tempos, demonstra-o o grau de maldade a que chegou o mundo contemporâneo.

Assim, diz o Pe. Aureliano Martinez O.P., comentando Santo Tomás: “O demônio tem suas doutrinas perversas, às quais o Apóstolo chama espírito de erro e ensinamentos do demônio (1 Tim 4, 1), com as quais, como deus deste mundo, cega a inteligência dos homens para que não brilhe nela a luz do Evangelho (2 Cor. 4,4); doutrinas que propala mediante falsos apóstolos e operários enganadores que se disfarçam em apóstolos de Cristo; e não é de espantar, pois o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz (2 Cor. 11, 13-14), tentando os fiéis de incontinência (1 Cor. 7, 5) e de ira (Ef 4, 27)”.(7)

Santo Tomás de Aquino (foto)

Entretanto, ensina Santo Tomás que os anjos bons, mesmo que por natureza pertençam a uma hierarquia inferior à de algum demônio (por exemplo, em relação a satanás), sempre têm um domínio sobre ele e o geral dos anjos decaídos. Pois gozam da perfeição da amizade de Deus, da qual estão privados os demônios; e esta perfeição é superior à mera excelência natural, a única que permanece nos demônios.(8)

E o mesmo pode ocorrer com o homem. Ele, pela graça santificante, está ligado à ordem sobrenatural. Como o sobrenatural estabelece entre os seres uma hierarquia de ordem superior, o homem em estado de graça pode subtrair-se ao império do demônio. Por isso é que este se esforça em arrastá-lo ao pecado, para que perca essa prerrogativa que a graça lhe dá sobre ele, como diz São João: “Todo o que comete o pecado é escravo do pecado” (Jo 8, 34) e, por conseguinte, do demônio.

Lúcifer domina todos os seus escravos pelo orgulho

“Satanás representa a satisfação dos apetites ao invés de abstinência.
Para mostrar em que situação se encontra o culto de satanás em nossa época, citamos o autor Bernhard Wenisch, que oferece dados elucidativos a respeito: “Estima-se que mais de 10 mil jovens se reúnam em grupos na Alemanha para adorar satanás e praticar a magia negra”, a maior parte é de adeptos do rock and roll.(9) Isso foi afirmado em 1992. Quantos serão hoje em dia?

Por outro lado, “em muitas partes da Alemanha são celebradas missas negras. [...] Já aconteceu que nessas cerimônias foram sacrificadas pessoas ao diabo”. Em 1985, “a TV francesa não só informou sobre a crença das bruxas, que continua persistindo entre o povo, mas também apresentou um ‘bruxo’ que, com a ajuda de forças demoníacas, produzia feitiços”.(10)

Satanás representa vingança em vez de oferecer também a outra face [...]. O mesmo autor afirma que, nos Estados Unidos, “milhares de crianças são vítimas anualmente do culto a satanás; 10 milhões de americanos praticam magia negra; aproximadamente cem milhões sucumbiram a práticas de ocultismo”,(11) sendo que a “magia e o ocultismo se alastram cada vez mais nos movimentos femininos. A onda esotérica aparece também nos grupos alternativo-ecológicos”.
(12) Citando o filósofo Kurt E. Koch, continua o mesmo autor: “Os satanistas devem ao demônio certas capacidades ocultas e assombrosas: poderiam pairar no ar, matar pássaros em vôo usando a magia, fazer aparecer e desaparecer objetos em recintos fechados. Os ‘praticantes de missa negra’ seriam ‘as tropas de elite de satanás’”.(13)

Alguns pontos da profissão de fé da Igreja de Satã, fundada em 1966, parecem ter muita aceitação no mundo atual, se não explícita, pelo menos implicitamente:

“Satanás representa a satisfação dos apetites ao invés de abstinência. [...]. Satanás representa vingança em vez de oferecer também a outra face [...]. Satanás representa todos os assim ditos pecados, porque todos eles levam à satisfação corporal, espiritual ou sentimental”.(14)

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