sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Nossa Senhora de Pötsch,a grande protetora da Áustria


O quadro miraculoso de Maria Pötsch defendeu a Áustria ao longo dos três últimos séculos de grandes ameaças, e em especial do perigo maometano. Hoje, mais do que nunca, sua proteção é necessária. Por Carlos Eduardo Schaffer-Correspondente – Áustria


Viena – O Stephansdom, a bela e venerável catedral de Santo Estêvão, edificada há mais de 700 anos, é o símbolo da cidade de Viena e um dos mais expressivos monumentos góticos que ainda restam na Áustria de hoje.

Belo em suas magníficas proporções, no esplendor de suas imagens, na riqueza de seus quadros, no rendilhado de suas pedras; venerável em sua história multissecular pontilhada de fastos grandiosos e de tragédias pungentes, em sua vetustez severa, mas ao mesmo tempo materna e bondosa; venerável também por ser um santuário que abriga, entre outras relíquias, o quadro milagroso de Maria Pötsch.

Entrando na catedral, pode-se notar em meio a uma leve penumbra, no lado direito junto à porta que conduz à capela do Santíssimo Sacramento, um quadro de Nossa Senhora com o Menino Jesus sob um baldaquino de mármore, em estilo gótico.

Diante dele, sólidos bancos com seus respectivos genuflexórios, ladeados por suportes onde milhares de velas se consomem diariamente, levando à Mãe de Deus preces e súplicas de seus filhos, quase sempre angustiados e aflitos, por vezes também agradecidos pelas graças recebidas.

Não se trata de um quadro qualquer. Maria Pötsch, pintura originária da aldeia de Pócs — Pötsch em alemão –– situada no leste da Hungria, foi trazida a Viena há mais de três séculos, por ordem do Imperador Leopoldo I.

História de um quadro singelo e maravilhoso

O quadro original no Stephansdom, logo depois do portal de entrada, atraindo incessantemente a veneração dos vienenses e austríacos de todas as regiões.

Em fins do século XVII, época de grandes tribulações, sobretudo para os países europeus próximos da Turquia, os habitantes da pequena aldeia de Pócs eram em sua maioria greco-católicos de origem rutena, isto é, ucraniana.

Os incessantes ataques de forças muçulmanas, precursores do tremendo cerco de Viena em 1683, produziam devastações horríveis, no decurso das quais incontáveis católicos caíam prisioneiros e eram reduzidos à escravidão.

Em 1675, um habitante de Pócs, Läszlö Csigri, escapara miraculosamente do cativeiro turco. Cumprindo uma promessa, em sinal de gratidão, encomendou a Istvan Pap, irmão mais jovem do pároco de Pócs, um quadro de Nossa Senhora para a igreja local.

Porém, quando o quadro ficou pronto, Csigri não dispunha do dinheiro para pagá-lo. Um habitante rico da aldeia, Lorinc Hurta, comprou então o quadro e o doou à igreja.

Sobre madeira nobre, o quadro de 70 x 50 cm apresenta Nossa Senhora envolta num manto vermelho, tendo o Menino Jesus no braço esquerdo, enquanto indica com a mão direita seu divino Filho, que é o caminho. Daí a invocação grega de hodegetria, isto é, Aquela que aponta o caminho. Duas estrelas, uma na testa e outra no ombro esquerdo de Nossa Senhora, simbolizam a sua virgindade perpétua.

Sobre a cabeça da Virgem e a do Menino Jesus o artista pintou uma auréola. No quadro estão também escritas abreviadamente as palavras Mãe de Deus e Jesus Cristo. Nos cantos do quadro podem-se ver as cabeças de dois querubins. Na parte de baixo está escrito em eslavo antigo, provavelmente por ordem de seu comprador Lorinc Hurta: “Mandou fazer este quadro o Servo de Deus [nome ilegível] para remissão de seus pecados”.

Enquanto obra de arte, não é pintura de grande valor. Sem embargo, a Mãe de Deus utilizou-se dela para operar maravilhas, e enquanto tal seu valor tornou-se inestimável.

Lacrimação miraculosa e sua confirmação

O quadro de Nossa Senhora que indica o caminho –– a boa via para evitar os perigos, e também o modo eficaz de vencer os inimigos –– foi desde logo objeto de grande devoção dos habitantes de Pócs, a qual aumentou quando a imagem chorou miraculosamente.

No dia 4 de novembro de 1696, durante a Missa rezada pelo pároco Pap, o camponês Mihaly Eory notou que lágrimas escorriam dos olhos da Virgem. O milagre, testemunhado pelos fiéis presentes à Missa, foi investigado por duas comissões, uma civil e outra eclesiástica. A comissão civil foi presidida pelo Conde Corbelli, comandante-em-chefe do exército imperial na Hungria do leste.

No dia 8 de dezembro, acompanhado de especialistas e diante de mais de 300 pessoas, entre elas inúmeros protestantes evangélicos e calvinistas, o general Corbelli examinou minuciosamente o quadro, constatou que estava íntegro, e enxugou com um lenço de seda as lágrimas que corriam dos olhos da Virgem. Ao final de suas investigações, o general Corbelli enviou um manuscrito ao bispo de Eger e um relatório ao Imperador, a respeito do milagre das lágrimas.

A investigação eclesiástica esteve a cargo de György Fenesy, bispo de Eger, o qual declarou que se tratava de um autêntico milagre. Os protocolos destas investigações, que começaram no dia 26 de dezembro de 1696, contêm declarações de 36 pessoas, inclusive protestantes, todas elas atestando o milagre das lágrimas.

Os documentos do inquérito estão guardados até hoje na Coleção Hevenesi da Biblioteca da Universidade de Budapeste.

A notícia do milagre espalhou-se rapidamente. Juntamente com o relatório do general Corbelli, chegou em Viena ao conhecimento de Leopoldo I, imperador da Áustria e rei da Hungria. Atendendo a um desejo da imperatriz Eleonora, Leopoldo I ordenou que o quadro milagroso fosse trasladado a Viena. Os católicos de Pócs, pesarosos, tiveram que se dobrar à vontade do seu imperador.

No dia 4 de julho de 1697, o quadro foi recebido pomposamente na capital austríaca, onde se celebraram Missas solenes e se organizaram com ele mais de 33 procissões nas paróquias da cidade.

* * *


Um fato histórico de grande importância contribuirá entretanto para fomentar a devoção a Nossa Senhora de Pócs, em todo o império austríaco. O Príncipe Eugênio de Sabóia, comandante das tropas imperiais, havia infligido no dia 11 de setembro de 1696, na batalha de Zenta, fragorosa derrota aos exércitos maometanos da Turquia.

Depois do fracasso do cerco de Viena, foi este o golpe definitivo nas pretensões turcas de impor um domínio islâmico sobre a Europa. O próprio Imperador Leopoldo I atribuiu esta vitória à intercessão de Nossa Senhora de Pócs, numa bula de 1701.

Pois, afirmou ele, a crença no poder de Maria Pötsch fez com que o povo pedisse insistentemente a Nossa Senhora a vitória sobre os turcos.

Os habitantes de Pócs não se conformavam com a perda de seu quadro milagroso. Queriam-no de volta, e escreveram ao imperador. Este porém, através do Bispo de Eger, respondeu que só lhes daria uma cópia do quadro. Efetivamente Mons. Telekesy, bispo de Eger, mandou fazer, por encargo do imperador, cópia que substituiu o original, e foi colocado em seu nicho na igreja de Pócs.

O quadro original nunca mais verteu lágrimas, nem as inúmeras cópias que dele foram feitas. Porém, a predileção de Nossa Senhora por seus fiéis dessa pequena aldeia manifestou-se ainda por duas vezes ao longo dos séculos: a cópia da igreja de Pócs chorou no dia 1º de agosto de 1715, e uma vez mais em 19 de dezembro de 1905. Ambas as lacrimações foram devidamente documentadas. A última foi até mesmo noticiada pela imprensa.


Enquanto a bela igreja de Pócs (foto ao lado) conserva em ornamentado altar a cópia do quadro miraculoso, o original se encontra no Stephansdom logo depois do portal de entrada, no lado direito, atraindo incessantemente a veneração dos vienenses e austríacos de todas as regiões.

E a todos, na pequena cidade húngara e na metrópole austríaca, vai Maria Pötsch desempenhando seu papel de hodegetria, de indicadora do bom caminho. Ela o mostrou na batalha de Zenta ao príncipe Eugênio de Sabóia, cujos restos mortais repousam atualmente na catedral de Viena, numa pequena capela.


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