quinta-feira, 2 de julho de 2009

Esplendor de uma cerimônia de canonização

O jornalista responsável de Catolicismo, Nelson Ramos Barretto, teve o privilégio de assistir, na praça de São Pedro, à cerimônia de canonização de cinco novos santos, entre eles o admirável “Santo Condestável” português, Nuno Álvares Pereira.



Roma –– Apesar de naquele dia 26 de abril Roma ter amanhecido nublada, prenunciando chuva, a canonização de cinco novos santos representou um dia radioso para a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

O palco da cerimônia foi a esplendorosa praça de São Pedro, circundada pela colunata de Bernini, tendo ao centro o milenar obelisco encimado por uma cruz sobre a esfera. Abaixo desta, o dístico: Stat Crux, dum volvitur urbis! (Enquanto o mundo gira, a Cruz permanece firme).

Na presença de milhares de peregrinos, Bento XVI proclamou a santidade de quatro italianos e um português: Arcangelo Tadini (1846-1912), fundador das Irmãs Operárias da Casa de Nazaré; Bernardo Tolomei (1272-1348), fundador da Congregação de Santa Maria do Monte Oliveto da Ordem de São Bento; Gertrude Comensoli (1847-1903), fundadora do Instituto das Irmãs Sacramentinas; Caterina Volpicelli (1839-1894), fundadora das Escravas do Sagrado Coração; Nuno de Santa Maria Álvares Pereira (1360-1431), herói nacional de Portugal e carmelita .

Marcada a cerimônia para as 10 horas, os peregrinos já esperavam junto aos portões de entrada da praça de São Pedro desde o alvorecer. Como jornalista, consegui ocupar um lugar privilegiado, bem junto às autoridades civis e religiosas.

A fachada da basílica de São Pedro estava adornada com cinco quadros representando os novos santos. Em primeiro plano, o magnífico trono do Papa, forrado de veludo vermelho com bordados de ouro. Próximo a ele, um grande altar, para a celebração da Missa e exposição dos ostensórios portando as relíquias dos novos santos.

Só estava aberta uma porta da basílica, custodiada por um guarda suíço a rigor. Por lá passaram e desceram as escadarias os cardeais, os monsenhores, os dignitários civis, bem como o corpo diplomático vestindo casacas adornadas de insígnias e condecorações.

A delegação portuguesa se apresentou numerosa, ultrapassando três mil pessoas. Pouco antes da cerimônia, começou a chover, e os guarda-chuvas foram se abrindo. Uma vez iniciada, porém, a chuva cessou. O prefeito da Congregação da Causa dos Santos passou à leitura do resumo das biografias dos novos santos para, no final, pedir ao Papa suas canonizações. No exato momento em que o Pontífice aceitou e ordenou as canonizações, o céu romano se abriu e um sol primaveril brilhou radiante.

Cortejo papal

As cerimônias de hoje não têm mais o esplendor e o fausto de outrora, quando o Papa, flanqueado por flabelis, entrava em sede gestatória dignamente carregada por membros da Guarda Nobre, ao som das famosas trombetas de prata desenhadas por Michelangelo.

Mas ainda agora, apesar de se terem sacrificado muitos esplendores em nome da praticidade, ainda há muita grandeza nos atos de uma canonização. O cenário da praça de São Pedro, os cortejos, os cânticos gregorianos, as belas orações em latim, os trajes litúrgicos e a compostura da assistência, tudo isso nos remete para a grandeza da Igreja católica.

Após entrar solenemente com os cardeais e ouvir o resumo da vida dos cinco bem-aventurados, o Papa reza, rogando a intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e de todos os santos. Pede que o Espírito Santo e a luz de Cristo resplandeçam na Igreja, para proclamar a santidade de seus filhos. Em seguida ele entoa a Ladainha de todos os santos, acompanhado pelo coral.

Ato contínuo, reza a fórmula da canonização. Com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos Santos Apóstolos São Pedro e São Paulo, pede à Santíssima Trindade a exaltação da fé católica e o incremento da vida cristã, a fim de definir e proclamar a santidade dos cinco beatos a serem honrados devotamente como santos pela Igreja universal.


Cortejo das relíquias

Enquanto o coro canta o Aleluia, um cortejo dos postuladores da causa de cada santo move-se lentamente, portando os ostensórios contendo suas respectivas relíquias. Depositam-nas no altar e se dirigem ao trono papal. Ali, de joelhos diante do Pontífice, recebem sua bênção.

As relíquias de São Nuno Álvares Pereira foram trazidas pelo postulador geral da Ordem Carmelita, Padre Felipe M. Amenós y Bonet, que conseguira reabrir a causa de canonização graças a um milagre obtido por sua intercessão no ano 2000.

O Prefeito da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos pede ao Papa que seja lavrada a Carta Apostólica da Canonização dos cinco santos. O Papa responde: “Decernimus” (Ordenamos). O Pontífice entoa o Gloria in excelsis Deo, que é respondido não apenas pelo coral, mas também pela multidão de fiéis.

São feitas as leituras da Epístola e do Evangelho. Segue-se depois a homilia do Santo Padre, no fim da qual ele entoa o Credo, em gregoriano, acompanhado também pela multidão.

Cortejo dos miraculados

No momento do Ofertório, forma-se um cortejo das pessoas agraciadas com os milagres obtidos pela intercessão dos santos que estão sendo canonizados. Pude constatar a alegria desses privilegiados da graça. Entre eles encontrava-se o casal Roberto Marazzi e Elizabeta Fostini, em que vários exames médicos diagnosticaram a impossibilidade de terem filhos. Não desanimaram, e sem nenhum recurso artificial nasceram-lhes miraculosamente dois filhos, Maria e Giovanni, pela intercessão de Santo Tadini.

A Missa foi rezada em latim. Na hora da Comunhão, o próprio Papa ministrou-a a um grupo de fiéis ajoelhados num genuflexório situado em frente do altar. Graças de arrependimento e conversão pairavam no ambiente. A meu lado, um senhor português pediu a um sacerdote brasileiro que ali se encontrava para se confessar, e assim poder receber a santa comunhão.
A cerimônia se encerrou ao meio-dia com a oração do Regina Cæli.

O Papa ainda saudou os peregrinos de vários países ali representados. Aos portugueses, disse:
Dirijo a minha saudação grata e deferente à delegação oficial de Portugal e aos bispos vindos para a canonização de Frei Nuno de Santa Maria, com todos os seus compatriotas que guardam no coração o testemunho do ‘Santo Condestável’: deste modo lhe chamavam já os do seu tempo.

“Em particular saúdo os carmelitas, a quem um dia se prendeu o olhar e o coração deste militar crente, vendo neles o hábito da Santíssima Virgem, e no qual depois ele próprio se amortalhou. Ao desejar a abundância dos dons do Céu para todos os peregrinos e devotos de São Nuno, deixo-lhes este apelo: ‘Considerai o êxito da sua carreira e imitai a sua fé’ (Heb. 13, 7)”.

Fonte: Catolicismo

Um comentário:

maralmartins disse...

Sinto uma grande alegria com a canonização deste valoroso portugues, soldado da fé e da pátria.Defendeu-a valorosamente com ajuda de Deus e da Virgem Maria de quem era ardoroso devoto.Depois doua seus bens aos pobres vivendo como um deles, sendo ele "mais rico que o rei" como então se dizia.Faz-se humilde carmelita, mas guardando a armadura de guerreiro debaixo do hábito religioso porque se dizia pronto para de novo defender a Pátria em nome de Deus.São Nuno, Santo Condestável, proteje e continua defendendo tua Nação.