sexta-feira, 10 de julho de 2009

Cresce na Europa a influência da tradição

Na Europa, um fenômeno não inteiramente novo, mas digno de toda a atenção: os valores da tradição vão adquirindo maior força nas almas - Por Cid Alencastro


Sob certo ponto de vista, um pouco simplificado, pode-se considerar a existência de duas Europas: a do passado e a do presente. De modo geral, constata-se que os turistas buscam a do passado e os europeus atuais vivem na do presente.

A Europa do presente e a do passado


Contraste impressionante entre o prédio Gherkin, ultramoderno, e as cúpulas sobranceiras da emblemática Torre de Londres Chamo de Europa do presente aquela já bastante massificada, na qual vão se diluindo as características próprias, tanto as nacionais quanto as regionais, e até mesmo as diferenças entre os sexos.

O tipo humano é cada vez mais globalizado; nos trajes reina o jeans; o pudor desaparece e o seminudismo afirma-se como antecâmara do nudismo; a arquitetura é calcada no modelo norte-americano, simplificada e sem beleza; a correria para o trabalho é norma; as preocupações materiais primam sobre as espirituais; o ateísmo prático vai deslizando para o socialismo e o ecologismo.

É a Europa da pirâmide mitterandiana do Louvre, do vocabulário empobrecido e das palavras pronunciadas de modo truncado, da mentalidade disseminada pela União Européia, a Europa da Revolução.


A Europa do passado é representada pelos monumentos esplendorosos deixados pela civilização cristã –– catedrais e igrejas, castelos magníficos e residências camponesas encantadoras, ao lado de confortáveis casas burguesas; pelas cenas da vida de outrora, amena, agradável, aconchegada ou então solene, sempre elevada, carregada de simbolismo como foi retratada nos quadros de grandes pintores; pelos trajes expostos nos museus, esfuziantes de beleza e distinção quando dos nobres, ou de um pitoresco colorido e gracioso quando populares, todos eles moralizados; pelas personalidades fortes, capazes de grandes atos de heroísmo e dedicação, ao mesmo tempo que amenas no trato e na vida diária.

É a Europa católica da Sainte Chapelle e de São Luís IX; da Reconquista espanhola e de São Fernando de Castela; de São Bento e Carlos Magno; das Cruzadas, fiel ao Papado; da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora. É a Europa da tradição, que brotou como um lírio de fé e pureza do sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim esboçadas, estas duas imagens muito simplificadas constituem apenas traços, como que impressionistas, de uma realidade bastante complexa, que não é possível aqui descrever com maior amplitude.

A velha Europa continua a viver dentro dos habitantes da nova

É indispensável, porém, esclarecer um ponto, sem o que se corre o risco de não entender o que se passa presentemente. As duas Europas não são estanques, elas se interpenetram. E a Europa do passado continua de algum modo a viver nos habitantes atuais, a não ser nos casos de uma rejeição consciente. E exerce sobre eles uma influência que é maior ou menor segundo os países, as regiões e as pessoas, mas sempre ponderável.

Seja por atavismos, por saudades, por dor de consciência, em alguns por princípio, os habitantes da nova Europa não querem o desaparecimento dos restos sagrados da antiga Europa, os quais ainda vivem não apenas nos monumentos e outras obras, mas dentro das pessoas, como brasas remanescentes de um incêndio de amor de Deus que se extinguiu.

Os cidadãos da nova Europa não querem deixar de pertencer a ela, mas seguram com a mão –– alguns com as duas mãos –– os vínculos que os ligam ao que já se foi.

A tradição começa a falar mais alto

O aspecto mais novo dentro desse quadro é que o apego ao passado esplendoroso da Europa, que antes vinha diminuindo gradativamente, de uns tempos para cá começou a crescer.

Na maior parte das vezes, não parece um fenômeno inteiramente consciente, mas de qualquer modo é muito ativo. A tradição passa a ter assento no parlamento interno de muitas almas, e começa a falar alto, obrigando os governantes e as próprias autoridades eclesiásticas a restaurar e até incrementar muita coisa do passado — nos edifícios, na arte, no cerimonial — sob pena de perder o contato com a população.

Contra tal restauração, setores ditos “progressistas” têm produzido uma gritaria que mais se assemelha ao desespero do que outra coisa.

Afinal, após mais de 500 anos de Revolução, de repente emerge esse fenômeno!

Dois processos paralelos e opostos

A Europa nova, de maneiras revolucionárias, continua seu avanço demolidor nos costumes, nas instituições, nas leis. Sob o signo de liberdade total, igualdade, cidadania, globalização, “antidiscriminação”, ela vai adiante, freqüentemente impulsionada pelos governos, pelos parlamentos, pelo Judiciário, pela mídia.

Dois processos paralelos e opostos correm na sociedade, por vezes dentro de uma mesma pessoa. Um deles é ostensivo, ululante, tendente ao arrasador, servido por grandes forças, e ainda majoritário: o da Europa nova.

O outro, o renascer do amor à tradição, é discreto, atuando na profundidade das almas e fazendo sentir seus efeitos; é cuidadosamente ocultado pela mídia, mas faz seu caminho de modo aparentemente incoercível.

Qual o futuro dessas duas tendências, incompatíveis entre si? Entrarão num choque? Qual delas vencerá? Buscarão uma composição? Qualquer previsão se afigura difícil.

Se a tendência a fazer reviver a tradição provém de uma graça obtida pela bondade materna de Maria Santíssima, como diversos indícios fazem crer, então poderemos estar diante de uma preparação das almas para o triunfo do Imaculado Coração de Maria.

Nesse panorama, a chamada “Europa dos turistas” estaria deixando de ser exclusivamente dos turistas para retornar a uma Europa de ponderável parcela de europeus, já disseminados por todo o continente.

“Quem viver, verá!”

Fonte: Catolicismo

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