sexta-feira, 10 de abril de 2009

Semana Santa em Sevilha

A capital da Andaluzia, na Espanha, é famosa por suas celebrações na Semana Santa. Milhares de penitentes desfilam pelas ruas, portando em procissão pesados andores com imagens que lembram os diversos momentos da Paixão de Nosso Senhor. Nesse artigo, algo do sabor do evento.

O doce perfume das laranjeiras em flor, que paira em toda a cidade, surpreende quem pela primeira vez visita Sevilha.

Em certas esquinas, durante a Semana Santa, esse perfume se mistura com nuvens de incenso que se elevam dos cortejos, e também com o cheiro da cera quente derramada pelos milhares de velas dos andores, carregados por penitentes que desfilam.

Apesar de um ditado afirmar que em Sevilha o ano inteiro é como se fosse Semana Santa, essa sensação olfativa é única e acompanha quem caminha pelas ruas ao longo desses dias.

Na Semana Santa não somente se respira, mas se toca, se contempla, sente-se vibração, reza-se, chora-se, canta-se.

A poesia está presente em todos os ambientes: nos floridos pátios internos das casas, muitas vezes visíveis da rua através de lindas grades de ferro forjado; nas capelinhas onde estão expostas as insígnias das confrarias; nos andores processionais ricamente adornados, com suas imagens reproduzindo os diversos momentos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.


Peculiar forma de sacralização da vida temporal

Foi para praticar um ato público de fé, em reação aos erros do protestantismo, que a partir do século XVI as confrarias saíram às ruas com seus pesados andores, levando em procissão suas imagens para proclamar publicamente sua fé.

Assim, representavam aos olhos de todos uma lição palpável de como se deve cultuar a Paixão de Nosso Senhor e as dores de Nossa Senhora, co-redentora. É de se considerar que tais manifestações são por vezes mais eloqüentes e eficazes do que mil sermões.

Por isso, o penitente que desfila durante longas horas carregando uma enorme vela acesa, revestido de uma túnica e do capuz pontiagudo que o torna anônimo, recebe o nome de “nazareno”: ele participa por sua penitência da Paixão de nosso Redentor, procurando tornar-se assim um outro Cristo.

No Domingo de Ramos, a primeira confraria que sai em procissão leva um andor representando a entrada triunfal de Nosso Senhor em Jerusalém. As confrarias — são mais de 50 que desfilam só na Semana Santa sevilhana — organizam as procissões e cuidam da conservação de suas imagens, verdadeiras obras de arte barroca.

Ademais, promovem através desses atos de piedade e de cultura católica um autêntico acontecimento na sociedade moderna, através do sustento e desenvolvimento da religiosidade popular e também mediante suas obras assistenciais e caritativas de grande porte.

A parte cultural inclui ainda a conservação de seus arquivos e de sua história, a organização de conferências e reuniões periódicas, bem como semanas de estudo sobre “fé e cultura”.

Todas essas atividades têm no centro o gosto pelo belo e constituem uma forma particular de sacralização da vida temporal.

A cidade sai em grandiosas procissões

Ao lado, detalhe de um andor em prata lavrada, Nossa Senhora com São João, caminhando pelas ruas da cidade ainda nos primeiros momentos da tarde, o visitante cruza com os penitentes já revestidos da túnica e com o capuz posto, que se dirigem para a igreja de onde deve sair a procissão de sua confraria.

Como são cerca de sete ou oito confrarias, com milhares de penitentes a cada dia, o movimento é contínuo.

Causa rara impressão estar esperando a abertura do semáforo para atravessar uma rua, tendo ao lado dois ou três desses personagens que parecem saídos de uma outra época. Alguns vestidos inteiramente de negro, com cilício de corda por cima da túnica; outros de branco, ou com o capuz e o escapulário de distintas cores.

Bom número deles caminham descalços, outros apenas com uma simples sandália. Vão caminhar assim durante horas.

Diante da igreja de onde sairá o cortejo, com as fanfarras que devem acompanhá-lo, o público se aglomera. Na hora marcada, a porta se abre de par em par e aparece primeiro a cruz de guia, abrindo alas para um impressionante cortejo de austeridade e de fé.

Atrás, entre os primeiros grupos de penitentes fazendo fila dupla, vem o senatus –– um emblema com as iniciais “SPQR”, símbolo da Roma antiga –– para lembrar que foi debaixo do poder do império romano que morreu Jesus, e que naqueles dias Sevilha (então chamada Hispalis), já era uma cidade importante e fortificada, cujas muralhas tinham sido levantadas séculos antes por Júlio César.

Várias centenas de penitentes continuam saindo da igreja, cada grupo com o seu zelador e com diversas insígnias, gonfalões e bandeiras — a da Santa Sé, bem como o estandarte da confraria — com frases inscritas como esta: “In cruce est vita, salus et ressurectio nostra” (Na Cruz está a nossa vida, salvação e ressurreição).

O livro que contém as regras da confraria, ricamente decorado com fechos de prata, é levado solenemente por uma guarda de honra.

Segue-se o pesado andor de Cristo, de madeira preciosa esculpida ou recoberto de ouro, com candelabros barrocos e flores, sobre o qual está representado algum dos momentos da Paixão: Nosso Senhor carregando a Cruz; o beijo de Judas; o Divino Corpo sendo levado ao túmulo; ou várias estações da Via Crucis.

O andor é carregado ao ombro por 40 portadores denominados costaleros, escondidos debaixo do andor coberto até o chão com pesados veludos, ocultos aos olhos dos observadores. Cada um carrega um peso de 50 ou 60 quilos sobre os ombros.

Antigamente os carregadores do porto faziam esse trabalho, que era remunerado. Mas desde o fim dos anos setenta, após a desaparição da profissão dos estivadores substituídos por máquinas, são membros voluntários da confraria que desempenham essa função.

Um pano dobrado cobre-lhes a cabeça, servindo para aliviar o peso sobre as vértebras do pescoço, onde se apóia a pesada trave do andor.

Adiante, o capataz vestido de negro, com ordens breves e rápidas, dirige o pesado andor enquanto os portadores caminham às cegas.

Uma segunda equipe aguarda, com o pano já dobrado sobre a cabeça, pronta para substituir regularmente os companheiros.

A fanfarra toca marchas fúnebres, os tambores com fortes golpes fazem vibrar os peitos, os clarins lançam lamentações que rasgam os ares.

O andor avança lentamente, acima das cabeças do público compacto, gira pouco a pouco no sentido da rua, e depois avança com passo mais rápido, no meio do estrugir dos aplausos comovidos.

Em honra da Virgem co-redentora da humanidade

Sai agora da igreja outra bandeira muito especial –– o Sinpecado, que leva a inscrição “Sine labe concepta”, em honra da Virgem Imaculada –– lembrando a verdade de que Nossa Senhora foi concebida sem pecado original e o voto de defendê-la, feito pelas confrarias séculos antes da proclamação do dogma pelo Papa Pio IX.

Essa pequena bandeira anuncia a saída do Pálio da Virgem, que já aparece no umbral da porta.

O andor de Nossa Senhora, de prata trabalhada, é coberto por um pálio.

A devoção filial para com a Virgem co-redentora excogitou essa maravilha que é o andor com um pálio, de surpreendente harmonia, além da grande beleza das imagens de Nossa Senhora, que sempre acompanham nas procissões o andor de Jesus Cristo.

É ao mesmo tempo um altar, um trono, uma poesia de filigrana, de luzes e de flores, e um “berço para embalar sua dor”, pois com a beleza do pálio os sevilhanos querem consolar as dores de Maria Santíssima e acompanhá-la em todos os instantes da Paixão.

Tocando a cauda de seu manto de Rainha, pequeno grupo de anônimos devotos que fizeram alguma promessa seguem durante horas, sem jamais se afastar do andor.

Os balcões das casas estão enfeitados com ricos tecidos, e todos os habitantes com suas melhores vestes. As crianças, ajudadas por alguns parentes, lançam uma chuva de pétalas de flores sobre o andor e depois sobre o pálio.

De repente, um canto solitário se faz ouvir. Modulado até quase perder o fôlego, é ao mesmo tempo oração e lamentação: a “saeta”, que sai de um peito como uma flecha lançada em direção à Virgem.

É como o fruto de uma grande angústia que aperta o coração e sobe à garganta, até romper em vivo e palpitante soluço. Por isso, um verso diz: “Nasceu a primeira saeta ao pé da Cruz / E se envolveu num suspiro da Mãe de Jesus”.

Fonte: Blog Catolicismo

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Um comentário:

Maria da penha disse...

muito linda esta reportagem sobre a semana Santa em Andaluzia e Sevilha, lendo atentamente da para viajar no tempo e ficar misturada aos Verdugos { homens emcapuzados das confrarias } é muito bom, que Deus abençõe este povo e a voçes por nos presentear com estas maravilhas, aprendemos muito com estas matérias, fiquem, com deus