sábado, 11 de abril de 2009

Paixão de Jesus Cristo, Paixão da Santa Igreja - parte 1

A Semana Santa - que, segundo o calendário litúrgico se comemora neste mês - é ocasião propícia para os fiéis fazerem uma profunda reflexão sobre as causas dos padecimentos do Divino Redentor e de Seu Corpo Místico: os pecados cometidos pelos homens em toda a História. Dentre aqueles, é recomendável que focalizemos os responsáveis pela imensa crise que assola a Santa Igreja em nossos dias.

A meditação da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo sempre foi uma das fontes de reafervoramento dos fiéis e caminho para a santidade.

Entretanto, para evitar que tal meditação fique apenas em considerações teóricas, sem efeito prático para nossas vidas, é muito conveniente fazê-la tendo também em vista a paixão de Seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

Não nos adianta apenas acompanhar com ternura os vários episódios da Paixão; isto seria excelente, não porém suficiente. Devemos dar a Nosso Senhor, nestes dias, provas sinceras de nossa devoção e amor.

Estas provas nós as damos pelo propósito de emendar nossa vida e de lutar com todas as forças pela Santa Igreja Católica. .... "Se queremos, pois, condoer-nos com a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, meditemos sobre o que Ele sofreu na mão dos judeus. Mas não nos esqueçamos de tudo quanto ainda hoje se faz para ferir o Divino Coração" (1).

Assim agia, em seu tempo, a grande Santa Teresa de vila. Tendo presente em suas orações e meditações o mal que o protestantismo nascente provocava na Europa, exclamava:

"Padre Eterno! Vede que não se podem esquecer tantos açoites e injúrias e tão gravíssimos tormentos (sofridos por vosso Filho). Pois, como podem entranhas tão amorosas como as vossas, sofrer que seja tido em tão pouca conta o que se fez com tão ardente amor de vosso Filho?

O mundo está pegando fogo; querem tornar a sentenciar Cristo. Pretendem demolir Sua Igreja: desmantelados os templos, perdidas tantas almas, abolidos os Sacramentos" (2).

Essa situação que ela, com acentos tão pungentes, lamentava no século XVI, atingiu tal paroxismo no final do século XIX, que levou o Papa Leão XIII a bradar em tom apocalíptico:

"Eis que o inimigo antigo e homicida se ergueu com veemência... O dragão maldito transvasou, como rio imundíssimo, o veneno de sua iniqüidade em homens depravados de mente e corruptos de coração. Incutiu-lhes o espírito de mentira, impiedade, blasfêmia, e seu hálito mortífero de luxúria, de todos os vícios e iniqüidades."

... Encheram de amargura a Igreja, Esposa Imaculada do Cordeiro e a inebriaram com absinto. Ali, onde está constituída a Sede do Beatíssimo Pedro e Cátedra da Verdade para iluminar os povos, aí colocaram o trono de abominação da sua impiedade, para que, ferido o Pastor, se dispersassem as ovelhas" (3).

Em nossos dias, Paulo VI falou de uma "autodemolição" na Igreja (4), admitindo mesmo que nEla tinha penetrado, por alguma fissura, "a fumaça de Satanás" (5).

"Se perseguir a Igreja é perseguir Jesus Cristo - comenta ainda o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira - e se hoje também a Igreja é perseguida, hoje Cristo é perseguido. A Paixão de Cristo se repete de algum modo também em nossos dias".

Por isso para nós, católicos, torna-se uma obrigação acompanhar a Semana da Paixão tendo esse fundo de quadro.

Infelizmente não faltam exemplos dessa trágica situação, reinante tanto na Igreja quanto na sociedade temporal. Para auxiliar o leitor nessa pia e indispensável meditação, forneceremos aqui alguns aspectos desse "rio imundíssimo", que em nossos dias transbordou, infectando todos os ambientes.

"Meu Pai, Meu Pai, dizia Ele, se é possível afaste-se de Mim este cálice" . (Lc 22,42) .(6)
No que consistia esse cálice? Qual o objeto dessa tremenda provação que levou o próprio Filho de Deus a tremer e a padecer de pavor?

O Verbo de Deus humanado deveria sofrer por todos os pecados da humanidade pecadora. E o faria por todas as épocas, até à consumação dos séculos, conforme predisse o Profeta Isaías: "Ele carrega sobre Si nossos pecados e sofre por nós" (Is 53,4).

Desse modo, naquele momento, o Divino Salvador viu desfilar ante si todas as abominações, blasfêmias, traições, apostasias e sacrilégios que se cometeriam até o fim dos tempos.
"Judas, com um ósculo entregas o Filho do Homem?" (Lc 22,48)

É desconcertante constatar que uma revista católica tenha procurado reabilitar Judas Iscariotes - protótipo de traição e vileza em todos os tempos - atribuindo ao Divino Mestre a culpa pelo suicídio do traidor.

De fato, após afirmar que Judas se arrependeu, artigo publicado na revista "Il Messaggero", do Santuário de Santo Antônio de Pádua, (Itália), acrescenta: "pois, no fundo, Judas amava muito a Nosso Senhor e só queria pô-Lo em dificuldade para forçá-Lo a fundar um reino temporal em Jerusalém".

Esperava dEle o perdão, mas em vez disso, ouviu a famosa frase: "Melhor seria que não tivesse nascido". Então, "tomado de desespero, suicidou-se, pois seu amor a Nosso Senhor era tal que não poderia ter esperado a morte natural para voltar a encontrá-Lo e pedir-Lhe perdão; de modo que quis antecipar-se, para poder reiterar o pedido de desculpas diretamente no Paraíso" (7).

Esta última frase, ademais, indiretamente chega a admitir a liceidade do suicídio! Tal posição escandalosa causa espanto.

"Não cantará o galo sem que me tenhas negado três vezes" (Mt 26, 34)

São Pedro negou Nosso Senhor, mas chorou toda sua vida essa defecção e a lavou com sangue. Quantos ministros do Senhor hoje em dia renegam a doutrina moral da Igreja e o próprio Magistério Eclesiástico! E isto na própria capital da Cristandade!

É o que se depreende da leitura desta notícia:

"Roma: 38% dos sacerdotes romanos confiam à responsabilidade dos cônjuges a escolha de usar a pílula; 41% não teriam nenhuma dificuldade em confessar com uma mulher-sacerdote; 77% sustentam que o ensino religioso nas escolas deveria responder aos critérios de liberdade de pensamento e de consciência dos cidadãos".

"À sombra da grande cúpula vive um clero em que há uma notável independência de espírito e que não tem problema em contradizer as normas papais sobre alguns pontos. Talvez sejam minoria. Mas minoria significativa, que freqüentemente chega a um terço de todo o corpo sacerdotal" (8).

Após ler essas desoladoras notícias, é oportuno recordar as seguintes palavras do fundador da TFP:

"A Igreja, sofredora, perseguida, vilipendiada, aí está a nossos olhos indiferentes ou cruéis. Ela está diante de nós como Cristo diante de Verônica. Condoamo-nos com os padecimentos dEla. Podemos estar certos de que, com isto, estaremos dando ao próprio Cristo uma consolação idêntica à que Lhe deu Verônica".

"E, cuspindo-Lhe, tomavam a cana, e batiam-Lhe na cabeça" (Mt 27, 30)

Infelizmente, muitos daqueles que deveriam ser o "sal da terra" e a "luz do mundo" agravaram seriamente os padecimentos do Redentor da humanidade. É o que, com imenso pesar, comprovamos pelas notícias que seguem:

"O Arcebispo de Viena, Grõer, acusado de pedofilia por ex-seminaristas, renunciou à presidência da Conferência dos Bispos Austríacos, cargo para o qual havia sido reeleito na quarta-feira" ("Jornal do Brasil", 7-4-95).

Para a revista alemã "Stern", "o Arcebispo de Viena não é uma clamorosa exceção à regra da castidade. Na Áustria metade dos padres teria ligações sexuais estáveis.

Já nos Estados Unidos, "no ano passado, 188 dioceses pagaram US$ 500 milhões a vítimas de abusos sexuais por parte de padres. Na Irlanda, uma série de programas de televisão sob o tema Igreja e Sexo gerou 260 telefonemas de pessoas que queriam denunciar padres molestadores.

Segundo "Stern", o muro do sagrado silêncio que cercava a Igreja parece estar sendo derrubado. ("O Globo", Rio, 14-4-95).

No Canadá a Canadian Broadcasting Company (CBC-TV) levou ao ar o No Chance to Heal, uma perturbadora apresentação, cujo tema era: como líderes da Igreja de Ottawa e Toronto saldaram a conta de 580 abusos sexuais envolvendo os Christian Brothers (Irmãos Cristãos ) (9).

Notas:
1 - Reflexões durante a Semana Santa, in "Legionário", 30/3/47. Deste artigo serão todas as outras citações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, com exceção da última.
2 - Santa Teresa, Caminho da Perfeição.
3 - Exorcismus in Satanan et Angelos Apostaticos.
4 - Cfr. Discurso ao Pontifício Seminário Lombardo, em 7-12-68.
5 - Cfr. Homilia Resistite Fortes in Fide, em 29-6-72.
6 - As citações evangélicas que figuram neste artigo foram extraídas da Concordância dos Santos Evangelhos, D. Duarte Leopoldo e Silva, 4a. edição, Linográfica, São Paulo, 1951.
7 - "Il Messaggero", Pádua, 21-2-95.
8 - Marco Politi. E os sacerdotes disseram sim à pílula entre esposos, "La Repubblica", Roma, 22-10-94.
9 - Cfr. Um escândalo de trágicas proporções..., in "The Wanderer", Saint Paul, Minnessota, EUA, 9-5-96, p. 7.

Por Plinio Maria Solimeo
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