segunda-feira, 6 de abril de 2009

Como preparar-se bem para a Semana Santa e se beneficiar das graças da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Se a Semana Santa hoje em dia representa pouco mais que alguns feriados no calendário, é porque também a Quaresma perdeu seu sentido.(1)

A idéia de que o homem deve apaziguar a divindade ofendida por seus crimes, submetendo seu corpo à expiação, é uma tradição de quase todos os povos, mesmo primitivos. Nós, católicos, encontramos constantes exemplos disso na Sagrada Escritura.

A consciência da necessidade dessa expiação levou a Igreja, sempre Mestra infalível, a preceder a comemoração de três dos maiores mistérios de nossa Redenção -- a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo -- de 40 dias de oração e penitência, em memória dos 40 dias de jejum do Divino Salvador na montanha.

Infelizmente a cada ano a Quaresma e a própria Semana Santa vão perdendo seu sentido num mundo cada vez mais materializado, não significando hoje senão alguns feriados no calendário, ótimos para um bom weekend. O que interessa ao mundo hodierno é gozar, gozar e gozar.

Parece então oportuno relembrar, neste fim de Quaresma e entrante Semana Santa, o estado de espírito com que os cristãos de outrora viviam essas comemorações.

Quaresma: tempo de oração e penitência

Assim São Leão Magno definiu, no século V, o significado da Quaresma: "A sabedoria divina estabeleceu este tempo propício de quarenta dias, a fim de que as nossas almas se pudessem purificar, e, por meio de boas obras e jejuns, expiassem as faltas passadas. Inúteis seriam, porém, nossos jejuns se, neste tempo, nossos corações se não desapegassem do pecado" (2).

É por isso que, antecipando de alguns dias a Quaresma, a Igreja unge a fronte culposa do fiel na Quarta-Feira de Cinzas, admoestando-o: "Lembra-te de que és pó, e que em pó hás de tornar".
Nos primeiros séculos de cristianismo, só os pecadores públicos desejosos de se reconciliarem com a Igreja recebiam nesse dia as cinzas. Depois essa prática foi estendida a todos, como pecadores diante de Deus.

O estado de espírito penitencial e confiante na misericórdia divina, com que devemos viver o tempo quaresmal, vem muito bem expresso no Tracto da Missa de Quarta-Feira de Cinzas com as belas palavras do Rei-Penitente, David: "Senhor, não nos trateis segundo nossos pecados nem nossas iniqüidades.

Não Vos recordeis, Senhor, de nossos delitos, mas antecipem-se depressa vossas misericórdias, porque fomos reduzidos à extrema miséria. Ajudai-nos, ó Deus Salvador nosso, e para glória do vosso Nome, livrai-nos, Senhor, e sede propício apesar de nossos pecados, por causa de vosso Nome" (Ps. 102, 10).

Além do coração contrito e humilhado com que o fiel deve preparar-se para o grandioso drama da Paixão, a Igreja impõe também uma penitência exterior. É a razão do jejum e da abstinência, infelizmente, hoje em dia -- dada a nossa fragilidade e moleza para o que é bom -- obrigatórios apenas na Quarta-Feira de Cinzas e Sexta-Feira Santa.

Tempo de mais fé houve em que o jejum e a abstinência eram muito mais rigorosos, chegando mesmo a três vezes por semana durante a Quaresma. E ovos e laticínios eram proibidos, por serem produtos animais. Algumas Igrejas do Oriente ainda observam essa norma.

A abstinência de carne era prescrição tão rigorosa, que mesmo reis e governantes necessitavam de dispensa papal quando não a podiam seguir.

A não observância da Quaresma: ruína para indivíduos e nações

Sendo, como já foi dito, os exercícios da Quaresma indispensáveis como preparação para a Semana Santa, Bento XIV, em 30 de maio de 1741, chegou a afirmar: "A observância da Quaresma é o laço de nossa milícia; por ela nos diferenciamos dos inimigos da Cruz de Jesus Cristo; por ela nos esquivamos dos açoites da cólera divina; por ela, amparados com a ajuda celestial durante o dia, nos fortalecemos contra os príncipes das trevas.

Se sua observância se relaxa, cai em desdouro a glória de Deus, desonra a Religião Católica e perigam as almas cristãs.

E não há dúvida de que este descuido seja fonte de desgraças para os povos, desastres nos negócios públicos e infortúnios para os indivíduos" (Constituição "Non Ambigimus"). Se hoje em dia a Semana Santa perdeu praticamente todo seu significado, é porque a Quaresma já não tem mais nenhum.

Conscientes disso, governantes verdadeiramente cristãos dos primeiros séculos da Igreja, como Graciano e Teodósio, chegaram a ordenar, em 380 DC, a suspensão de todos os processos e demandas judiciais durante esse período, medida que vigorou por vários séculos.

Também com esse espírito o Papa São Nicolau I proibiu, no século IX, a caça, esporte predileto da nobreza da época. A dissipação e o tumulto que acompanham tais exercícios são incompatíveis com o espírito de recolhimento da Quaresma, afirmou aquele Pontífice. Seria pensável algo semelhante hoje em dia, com tantas competições esportivas endeusadas pelo povo?

A Igreja ia mais além, recomendando que se suspendessem todas as hostilidades e atividades militares não estritamente necessárias para a manutenção da ordem.

Pasme nosso século sensual e prevaricador! De tal maneira o espírito do povo estava impregnado com esse caráter penitencial e reparador da Quaresma que, durante muitos séculos, foi possível à Igreja obter dos esposos a continência absoluta durante esse período.

Além da penitência muito agradável a Deus, que isso supunha, ajudava os fiéis a refrear a sedução para o prazer, ordenar os instintos sensuais do próprio corpo, e a valorizar mais a dignidade de sua alma.

Durante séculos, toda festividade civil e religiosa foi excluída do período Quaresmal para preservar seu caráter austero. Exceção foi feita posteriormente quanto à comemoração da Anunciação, por causa de seu grande significado. Tempos mais tarde, abriu-se também uma exceção para a festa do Apóstolo São Matias, em 24 de fevereiro.

Os Alleluias, o Glória e o Te Deum eram suspensos da liturgia. Uma imensa cortina roxa era colocada entre o altar e os fiéis como símbolo do luto penitencial a que o pecador deve submeter-se para contemplar novamente a majestade do Deus que ofendeu por suas maldades. Significava também as humilhações de Cristo durante Sua Paixão.

Em muitas igrejas, costumava-se cobrir de roxo as imagens e cruzes a fim de inspirar mais viva compunção nos fiéis ao contemplar esses velados objetos de piedade. O velar a cruz expressava a humilhação de Nosso Senhor, obrigado a ocultar-se, como se lê no Evangelho do Domingo da Paixão, para evitar ser apedrejado pelos judeus.

Durante esse período, multiplicavam-se os atos de piedade, como visitas a igrejas, adorações ao Santíssimo, e, sobretudo, o piedoso exercício da Via-Sacra.

Chegava-se, assim, à Semana Santa. Se durante a Quaresma a Igreja havia proposto à meditação dos fiéis o jejum de Cristo, a liturgia agora voltava-se para a consideração de Suas dores e paixão. Nestes dias, o rigor do jejum da Quaresma aumentava antigamente, como num supremo esforço de reparação e penitência.

Naqueles tempos de fé, a lei civil apoiava a eclesiástica para que fossem suspensos trabalho e comércio, expressando assim o luto da Cristandade pelo falecimento do Redentor.

As preocupações de ordem material davam lugar às de ordem espiritual, e o pensamento da Paixão impregnava a todos. Mesmo as relações ordinárias eram reduzidas ao indispensável, para que outro objeto não distraísse a atenção dos fiéis.

Quinta-Feira Santa: instituição da Eucaristia e do sacerdócio

No Cenáculo ocorreram grandes mistérios na noite santa em que Cristo lavou os pés de Seus discípulos, mesmo os daquele que logo O trairia: ali foi oferecida a "Vítima Pura", na primeira Missa celebrada, e instituído o Sacerdócio.

Como a Igreja -- em meio à profunda dor dessa Semana -- quer entretanto honrar com o maior esplendor possível tão grande aniversário, veste-se de branco como no Natal e na Páscoa, para uma das mais solenes Missas do ano.

Volta-se a ouvir novamente o Glória, e os sinos repicam alegremente. Emudecerão em seguida. O lúgubre e pungente som da matraca exprime melhor a soledade e o abandono que se vão seguir.

A nota de luto é também atenuada no Monumento, todo branco e ornado com flores. Nele será depositado o Santíssimo Sacramento, à espera da adoração dos fiéis até o momento da comunhão da Sexta-Feira Santa.

As missas privadas, que não de força maior, são proibidas na Quinta-Feira Santa, para que haja um só sacrifício e todos os sacerdotes a ele se unam como os Apóstolos se uniram ao de Cristo nosso Senhor no Cenáculo.

Era neste dia que a Igreja, terna Mãe, recebia de volta em seu seio os pecadores arrependidos. Os príncipes cristãos, seguindo-lhe o exemplo, abriam as prisões para os que não tivessem cometido delito grave contra a sociedade. Comutavam também a pena de condenados à morte, para que todos pudessem assim santificar os dias que precedem a festa de Páscoa.

"Com este perdão -- diz o Papa São Leão -- queriam mostrar-se imitadores da bondade divina nestes dias em que se dignou salvar o mundo. Seu exemplo seja um estímulo para que as pessoas se perdoem mutuamente, pois as leis familiares não devem ser mais rigorosas que as públicas", acrescentava o santo Pontífice (Sexta Homilia ao povo de Antioquia).

Embora os processos judiciais fossem suspensos durante a Semana Santa, exceção era feita para os que implicassem na libertação de escravos. Se a Igreja, Mãe comum, não tinha ainda meios para libertá-los imediatamente, criava um estado de espírito propício para que gradualmente o fossem, na medida em que seus benéficos efeitos permeavam a sociedade.

"O que mais podia fazer por ti que não tenha feito?"

Enfim, na Sexta-Feira Santa, chegava-se ao clímax.

Preparado por uma Quaresma bem observada, o fiel imergia neste dia na meditação dos sofrimentos do Redentor. Acompanhava-O em espírito do palácio de Anás ao de Caifás, e depois ao de Pilatos. Enternecia-se ao contemplar o Rei do Universo -- flagelado, coroado de espinhos e com uma túnica de escárnio -- ser preterido a Barrabás.

Acompanhava-O na Via-Crucis, sofrendo com Ele a cada passo, a cada queda. Condoía-se com a Mãe das Dores vendo Seu Divino Filho assim tratado, devido a nossos pecados. Como outro Cirineu, quereria ajudá-Lo a carregar a Cruz. E sentia-se humilhado vendo-O ser despido e pregado à Cruz. Sua alma se lhe partia ao ver expirar seu Redentor.

Propunha-se pelo menos a fazer companhia a Nossa Senhora e às Santas Mulheres em sua soledade, desolação e pranto.

Os ecos dos Impropérios continuavam a soar-lhe aos ouvidos como uma acusação "O que mais podia fazer por ti que não tenha feito?".

E a pungente enumeração dos benefícios recebidos do Salvador, em contraste com suas ingratidões e ofensas, compungia e fendia seu coração, por mais empedernido que fosse. Sim, "tudo isto foi para salvar.

Salvar os homens, e salvar este homem que sou eu. Minha salvação custou todo esse preço".

Como toda compunção torna-se estéril sentimentalismo se não é acompanhada de firme propósito de emenda, devia acrescentar: "Eu não regatearei mais sacrifício algum para assegurar salvação tão preciosa.

Pela ≡gua e pelo Sangue que verteram de vosso divino Lado, pela Chaga de Vosso Coração, pelas dores de Maria Santíssima, Jesus, dai-me forças para me desapegar das pessoas e das coisas que possam me distanciar de Vós. Morram hoje, pregadas na Cruz, todas as amizades, todos os afetos, todas as ambições, todos os deleites que de Vós me separam" (3).

Para esse tipo de fiel, a Semana-Santa tinha produzido frutos de vida eterna. Estava ele preparado para exultar com Maria Santíssima, os Anjos e os justos da Terra, no Domingo da Ressurreição.

(1) - Este artigo foi redigido com base nos comentários de Dom Próspero Guéranger em sua obra L'Année Liturgique, edição espanhola da Editorial Aldecoa, Burgos, 1956, Vol. II. As citações que não vieram especificadas são, assim, dessa obra.
(2) - D. Beda Keckeisen O.S.B., Missal Quotidiano, Tipografia Beneditina Ltda., Salvador, 1952, p. 159.
(3) - Plinio Corrêa de Oliveira, Via-Sacra, Catolicismo, nº 3, março 1951.
Outras obras consultadas: K. Bihlmeyer e H. Tuechle, História da Igreja, Edições Paulinas, São Paulo, 1963, vol. I., e Dom Andres Azcarate, O.S.B., Misal Diario para America, Editorial Guadalupe, 3ª edição, Buenos Aires, 1956.


Por Afonso de Souza
Blog Catolicismo

3 comentários:

Anônimo disse...

Belíssimo artigo!!

Parabéns!!

Anônimo disse...

O mundo seria tão diferente se os homens voltassem mais para as coisas de Deus. Não sómente no tempo quaresmal, mas durante o ano todo.

Nilton Borges disse...

A quaresma é um tempo de conversão, mais os próprios católicos a ignoram,o mundo já não é o mesmo. A humanidade não tira tempo para reflexão, ninguém tem mais tempo para Deus. (Existem excessões é claro).