quarta-feira, 25 de março de 2009

25 de Março - Anunciação e Encarnação do Verbo de Deus

A festa da Anunciação, que se comemora no dia 25 de março, é uma das maiores da Cristandade, pois nela comemora-se o Mistério sublime da Encarnação do Verbo no seio puríssimo de Maria.

Desde o século V já se tem indícios da comemoração desta festividade mariana.

A esse Mistério foram dedicadas em toda a Cristandade inúmeras igrejas, mosteiros, ordens religiosas e inclusive uma Ordem Militar de Cavalaria, a da Anunciação, na França do século XIV.


Maria, a obra-prima das mãos de Deus

No Oriente, havendo uma festa especial para celebrar o papel de Nossa Senhora na Redenção a 26 de dezembro, a festa da Anunciação é considerada uma comemoração de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Encarnação do Verbo de Deus.

Na Igreja Latina sempre foi uma festa de Nossa Senhora.

Isso é bem compreensível, como explica o Doutor Marial por excelência, São Luís Maria Grignion de Montfort:

"Deus Padre só deu ao mundo seu Unigênito por Maria. Suspiraram os patriarcas e pedidos insistentes fizeram os profetas e os santos da lei antiga durante quatro milênios, mas só Maria o mereceu e alcançou graça diante de Deus pela força de suas orações e pela sublimidade de suas virtudes. Porque o mundo era indigno, diz Santo Agostinho, de receber o Filho de Deus diretamente das mãos do Pai, Ele o deu a Maria a fim de que o mundo o recebesse por meio dEla". (1)

Para nos explicar o amor de Deus por Maria, diz o teólogo dominicano francês Pe. Garrigou-Lagrange:

"O Verbo feito Carne ama todos os homens, pelos quais está preparado a derramar Seu Sangue. Ele ama de um modo especial os eleitos, e entre eles, de um modo ainda mais especial, os apóstolos e os santos. Porém, seu amor por Maria, destinada a estar mais intimamente associada com Ele em Seu trabalho pela salvação das almas, é o maior de todos. Mas Jesus é Deus. Assim, Seu amor por Ela produz na alma de Maria graças em superabundância, de modo a transbordar para as outras almas". (2)

"O Anjo do Senhor anunciou a Maria"

Narra São Lucas: "E o anjo, aproximando-se, disse-lhe: Salve, cheia de graça; o Senhor é contigo".

Nessa narração do Evangelista, simples em sua sublimidade, há um primeiro ponto a ser notado. Como bem pondera o Pe. Garrigou-Lagrange, seguindo Santo Tomás, "era conveniente que a Anunciação fosse feita por um anjo, como embaixador do Altíssimo. Um anjo rebelde causou a Queda; um anjo santo, o mais alto dos arcanjos, anunciaria a Redenção". (3)

"Não nos deve escapar", observa por sua vez um renomado teólogo norte-americano, "que o anjo omite o nome de Maria em sua saudação, e a designa somente pela graça (de que está cumulada). Isso denota que Ela era preeminente entre todas as criaturas pela prerrogativa da graça". E acrescenta: "Na Teologia católica graça é o princípio que vivifica a alma com vida e poder espiritual, e a torna agradável a Deus. ...

"O grau de graça a que havia chegado Maria estava acima de qualquer outro concedido a simples criatura" (4).

Isso porque, diz ainda o Pe. Garrigou-Lagrange, "o progresso de Maria foi o mais contínuo de todos. Ele não encontrou obstáculos, não foi impedido nem retardado por apegos ao próprio ser ou às coisas deste mundo. Foi o mais rápido de todos, porque o grau em que começou foi determinado pela plenitude de graças em Maria, e portanto suplantou o de todos os santos" (5).

"Ela turbou-se... considerando que forma de saudação era aquela"

"Há uma evidência de força e de gravidade feminina no silêncio de Maria ponderando a mensagem do anjo. Ela está perturbada, mas composta e pensativa. Que apropriada atitude de alma para receber uma manifestação da vontade divina -- ­silêncio e pensamento!" (6)

O Arcanjo Gabriel apressou-se em tranqüilizá-la, e o fez numa linguagem solene de acordo com a sublimidade de sua missão, agora a chamando familiarmente pelo nome para pô-la mais à vontade.

O futuro da humanidade dependia desse assentimento. Poderia Maria Virgem, concebida sem pecado original, recusar esse tremendo privilégio? Como não? Lúcifer, em quem também não havia pecado original, colocado ante uma escolha, disse não. Portanto Nossa Senhora, dotada do livre arbítrio como todos os homens, podia dizer sim, ou não. Se, por uma humildade mal interpretada, Ela recusasse essa graça como honra imerecida, o rumo da História teria sido outro.


"Como se fará isso...?"


Entre os judeus a mulher estéril era considerada desprezível, porque não tinha possibilidade de vir a ser a mãe do Messias. Que jovem judia teria hesitado um segundo em dar seu jubiloso consentimento à inexprimível honra de ser escolhida para mãe do Messias?

Entretanto Maria hesitou. Havia feito voto de virgindade e sabia que este tinha sido aceito por Deus. Por isso Ela "de um lado, amava seu virginal estado que a unia tão intimamente a Deus; de outro, desejava avidamente fazer a vontade de Deus. E agora Deus faz-lhe saber que Ela deve ser mãe..." (7).

Explica-lhe então o anjo como isto realizar-se-ia por acumulação, e não por exclusão. Comentando esse singular privilégio, o cantor da Virgem, São Bernardo, afirma:

"Não há senão uma só coisa na qual Maria não tem modelo nem imitadores: é na união das alegrias da maternidade com a glória da virgindade. Ela escolheu a melhor parte. E isto é fora de dúvida pois, se a fecundidade do matrimônio é boa, a castidade das virgens é melhor. Mas o que supera uma e outra, é a fecundidade unida à virgindade, ou a virgindade unida à fecundidade. Ora, esta união é o privilégio de Maria" (8).

"Faça-se em mim segundo Tua palavra"

Para felicidade não só dos homens, mas de todo o mundo criado incluindo o angélico, essa Virgem fiel disse sim. Tendo a verdadeira humildade, sabia que, se fora cumulada de tantas graças, não o fora senão por uma misericórdia e por um desígnio de Deus. Daí a sublime resposta que deu ser repetida por todos os séculos enquanto o mundo for mundo: "Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo Tua palavra".

A respeito dessa sublime resposta, comenta o Pe. Garrigou-Lagrange:

"Santo Tomás acrescenta que Seu sobrenatural e meritório consentimento foi dado em nome de toda a raça humana, que necessitava do Redentor prometido" (9). Segundo os teólogos, no momento desse sublime "fiat" deu-se a Encarnação.

E acrescenta aquele autor:

"Santo Tomás nos diz que a plenitude de graças em Maria cresceu notavelmente na Encarnação por meio da presença do Verbo de Deus feito carne. [De modo que] se Ela não tivesse sido ainda confirmada em graça, deveria sê-lo a partir desse momento (10).

O que, pouco depois, levaria Maria Santíssima, ainda abismada e extasiada em sua inexprimível ventura, ao ser louvada por Santa Isabel, irromper num sublime hino de louvor e de ação de graças: "Minha alma engrandece o Senhor e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador".

"Ir à Mãe, para chegar ao Filho"

Afirma São Luís Grignion de Montfort:

"A conduta das três Pessoas da Santíssima Trindade na Encarnação e primeira vinda de Jesus Cristo, é a mesma de todos os dias, de um modo visível, na Igreja, e esse procedimento há de perdurar, até a consumação dos séculos, na última vinda de Cristo. Ou seja, por meio de Maria sempre virgem".

E esclarece: "Deus Filho comunicou à sua Mãe tudo que adquiriu por sua vida e morte: seus méritos infinitos e suas virtudes admiráveis. Fê-La tesoureira de tudo que seu Pai lhe deu em herança; é por Ela que Ele aplica Seus méritos aos membros do Corpo Místico, que comunica Suas virtudes e distribui Suas graças. É Ela o canal misterioso, o aqueduto, pelo qual passam abundante e docemente Suas misericórdias". (11).

Que melhor fruto podemos tirar da festa da Anunciação do que seguir o Filho, utilizando o mesmo caminho que Ele fez para vir até nós? "O felix culpa que nos obteve um tal Salvador", diz a liturgia da Semana Santa referindo-se ao pecado original e à Redenção. Com toda a propriedade podemos nós acrescentar, "e que nos deu Mãe tão terníssima, Advogada tão poderosíssima, verdadeiro penhor de salvação e de vida eterna".

Fonte: Blog Revista Catolicismo

Notas:

(1) São Luís Maria Grignion de Monfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Editora Vozes, Petrópolis, 1953, p. 26.

(2) Fr. Reginald Garrigou-Lagrange O.P., The Mother of the Saviour and our interior Life, translation by Fr. Bernard J.Kelly, CSSp, D.D., B. Herder Book Company, Saint Louis, MO (USA), 1953, p. 101.

(3) Idem, ibidem p. 99.

(4) Fr. A.E.Breen, Ph.D., D.D., A Harnonized Exposition of the Four Gospels, Keystone Printing Service, Inc., Milwakee, Wis., (USA) 1927, vol. I, p. 69.

(5) Fr. Reginald Garrigou-Lagrange, op. cit. p. 89.

(6) Fr. A.E.Breen, op. cit. p. 71.

(7) Idem, ibidem, p. 75.

(8) São Bernardo, Notre Mère, Coleção Dieu et Moi, La Croisade, Paris, 1927, p. 23.

(9) Fr. Reginald Garrigou-Lagrange, op. cit. p. 99.

(10) Idem, ibidem, p. 101.

(11) São Luís Maria Grignion de Montfort, op.cit., pp. 30,3l.

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