sábado, 29 de novembro de 2008

Catedral de Bourges: hierarquia e beleza duma Bíblia em pedra e cristal

Meçam a espessura da parede! Quantos santos ou anjos há em pé! É extraordinário!

A parte que toca no chão são coluninhas vazadas, muito delicadas, que foram por sua vez esculpidas.

É quase que uma orgia de trabalho, de dedicação, uma extraordinária manifestação de fé.

No centro da fachada, sem considerar as portas, o grande ponto de convergência da decoração é a rosácea grande em cima.

Depois há um espaço liso, e depois para baixo começam ogivas. Espaço livre é quase nenhum.

Todas essa partes laterais estão para a rosácea, como as portas laterais estão para as portas do centro. A rosácea é a rainha com suas damas.

A catedral de Bourges é a expressão arquitetônica do espírito hierárquico de sua época. Tudo nela é hierarquia, classe, categoria. É o espírito da Idade Média.

As catedrais eram feitas para conter a população inteira da cidade. A cidade inteira era católica.

A igreja era o palácio de Deus, e no palácio de Deus havia um lugar de destaque para o rei, ou para o senhor feudal, para as autoridades municipais, sobretudo para as autoridades eclesiásticas, mas deveria caber o povinho de Deus inteiro.

Será que esta catedral se enche hoje como se enchia outrora? Eu temo que não.

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Dividindo as portas há um símbolo muito bonito.

Os medievais poderiam ter feito um portal só mas eles fizeram duas portas.

Separando as duas portas há uma colunazinha com uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, e um dossel sobre a imagem dEle.

A idéia era apontar aos que entravam Cristo como divisor dos caminhos.

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Esses são chamados botaréus, do lado de fora da igreja.

Os medievais não conheciam bem os cálculos necessários para garantir a estabilidade do edifício.

Do lado de fora punham esses arcos para evitar que o edifício ruísse.

São verdadeiras escoras colocadas de encontro à cúpula central da catedral.

Mas as escoras são tão bonitas, elegantes e leves, que se pensasse em tirá-las, os artistas do mundo inteiro protestariam.

De fato, esses botaréus resultam de um desconhecimento de certas regras de cálculo. Mas quando se tem uma grande alma até o não-conhecer leva ao belo.


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Os vitrais de Bourges são verdadeiros vitrais. É de se ficar maravilhado.

Formam verdadeiras rendas de vidro. Neles há um porção de figurinhas que se movem, falam, gesticulam.

Em geral são episódios do Antigo e do Novo Testamentos mais alguns episódios históricos da Cristandade e da vida dos santos.

Na última divisão há um tampo de uma sepultura que está abrindo, e os mortos estão saindo por ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo para o Juízo Final.

A cruz está presente em tudo. Cada divisão é dominada por uma cruz.

Notem aquele azul. Um azul profundo! Lembra o azul de certas asas de borboletas do Brasil.

No centro do vitral da rosácea há uma figura: é o Cristo gladífero de que nos fala o Apocalipse.

A combinação de côres maravilhosa encanta a gente!

Dentro desses virais tem lições para quem? Para os analfabetos. Os que não sabiam ler e escrever tinha uma verdadeira Bíblia nos vitrais.

(Extraído do blog Catedrais Medievais)


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